EDITORIAL
Quem está pronto?
O presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen, diz que o Brasil não está preparado para receber o PT e que o PT não está preparado para governar o Brasil. São declarações de antevésperas de eleições, e naturais no contexto da antropofagia costumeira dos confrontos políticos. Mas o velho cacique, emergente de um clã que há mais de cinquenta anos figura entre os feudos que se revezam no comando político de Santa Catarina, peca ao dizer que o Brasil não está preparado para absorver esta ou aquela corrente ideológica. Os brasileiros só não deglutem as ditaduras, os desmandos e a corrupção dos governos.
O certo é que os políticos tradicionais já demonstraram, estes sim, não estarem preparados para ser governo, embora hábeis para serem o que são: políticos. Se o PT não está preparado, é pertinente perguntar se há alguém nas fileiras político-partidárias, neste momento, preparado para a missão de ser o governante do País. Quando o sociólogo e intelectual Fernando Henrique Cardoso se apresentou como candidato, os brasileiros o elegeram, porque o imaginavam apto para ser presidente da República, mas depois constataram que foi um equívoco.
Agora o horário nobre da TV é recheado de capítulos de uma novela que tem Roseana Sarney como atriz central e o de quinta-feira durou quase 30 minutos. Pela sua indiscutível e até contagiante simpatia, ela é uma figura agradável no vídeo. Ela faz, obviamente, declarada campanha política, e é legítimo que aspire a Presidência. Mas, preparada ou não e nada a ver com o fato de ser mulher também ela traz um vício de origem, o de pertencer à dinastia dos ''senhores de engenho'' do Nordeste e que há muitas décadas desgovernam aquela desolada região brasileira, vítima da indústria da seca que é capitaneada pelos próprios governantes de lá, que vão se sucedendo aliados ou adversários mas todos sempre iguais. Difícil, para Roseana, libertar-se dessa tradição e desse estigma.
O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (PFL), diz que ''está na hora de uma mulher na Presidência''. E não, obviamente, pela presença da Roseana mulher, virtual candidata, mas porque ela pertence ao seu partido. O PT diz que ''está na hora do PT'', e o perseverante Luiz Inácio Lula da Silva reapresenta-se como candidato. Os políticos não querem um governo para o Brasil, querem ser governo, e é isto que faz a diferença e que ainda não conferiu o índice de qualidade que a nação espera dos seus homens públicos.
O que se constata, com tristeza, é o desencanto geral dos brasileiros com a ação dos políticos, e isto os afasta da vontade de participar. Se temos escassez de bons parlamentares e de bons administradores públicos, a ausência da empolgação popular coloca a nação sob o risco de ser subjugada por eles. Parafraseando Clemenceau, governar é coisa séria demais para ser confiada exclusivamente aos políticos. Pior que maus políticos, despreparados para governar, é os cidadãos deixarem-se dominar pela desilusão e pela inércia e ficarem ausentes do processo. A ação política é um movimento inerente a nós, civis, ou não poderemos nos proclamar democráticos.
Não se questiona se o candidato Lula está preparado ou não para ser presidente da República para nos atermos, ainda, ao pronunciamento de Bornhausen eis que, supostamente, lhe falte suficiência cultural ou quem sabe estofo diplomático para sentar-se à mesa dos destacados líderes mundiais, mas o presidente que temos é exatamente o que faz bem todas essas coisas, e no entanto, de que servem elas?! Os brasileiros estão preparados para responder: servem, mas não se bastam por si sós. É preciso que um brilhante orador e diplomata, que se apresenta para ser governante, também governe! Só bons discursos não forjam um estadista.





