EDITORIAL
Uma obsessão
A venda da Copel tornou-se uma obsessão para o governo do Paraná, se bem entendemos as palavras do secretário José Cid Campêlo. Ele declara que só não haverá leilão se não houver interessados na compra. Mas vender só pelo fato de haver um interessado pode significar vender a qualquer preço. Sem concorrência haverá apenas um arrematador, e ele só fará o lance inicial e se recolherá. Sem nova oferta, comprará ou não, mas se comprar, não se espera que o preço vá além do mínimo. E com um único proponente, descaracteriza-se o leilão, e o que acontecer será uma simples venda.
De repente, poderá não haver mais interessados na compra da Copel, só restando os 9 milhões de desinteressados na venda, que são os cidadãos paranaenses. E, isoladamente, contrariando a tudo e a todos, ficam o governo e a comunidade dos deputados que votaram pela privatização e que aguardam sua recompensa. Que sem venda não ocorrerá. Naturalmente que estamos nos referindo aos prometimentos para atender às regiões que eles representam, eis que o mais fica por conta do imaginário popular.
Enquanto isso, prossegue a dança das liminares, que já deve estar deixando atordoada a própria Justiça. Na Assembléia Legislativa um mandado de segurança das oposições alega vícios no processo da votação que manteve a lei de venda da Copel, em agosto. O argumento é que não deve ser considerado válido o voto do secretário dos Transportes, deputado Nelson Justus, que se afastou por algumas horas da titularidade da pasta, travestiu-se novamente de parlamentar, votou a favor do governo e retornou para a secretaria.
Tal procedimento faz parte da nossa legislação, mas se é legal não é moral, e mesmo dentro da lei exige alguns requisitos, que se alega não haverem sido cumpridos. O governo veio tendo sucesso na derrubada das liminares, e só uma delas continua em tramitação a que questiona a falta de transparência na contabilidade dos ativos da empresa.
Mas, no balanço da situação, o que se afigura marcante não está nas pastas dos despachos judiciais e sim na falta de capital para a compra da megaempresa paranaense de eletricidade, e contra esse argumento liminares e contraliminares não bastam. Dois gigantes um consórcio brasileiro e um belga já desistiram do negócio, ao menos nas condições propostas. O temor, agora, é que o governo e a comunidade governista no Parlamento estadual levem a causa também para birra e queiram provar que são capazes de concretizar a venda, a qualquer preço e em quaisquer condições.
Este governo talvez já não esteja em condições de analisar friamente a questão, dada a vigorosa corrente de contrariedades que cerca o caso e o estado emocional que se criou. As próprias instâncias da Justiça parecem estar brigando entre si, e a opinião pública faz gracejos para ver quantas horas e agora quantos minutos de vida tem uma liminar.
Ademais, em final de um mandato de oito anos, o governo perde um pouco do credenciamento para realizar um negócio de tamanha envergadura. A sensatez que a esta altura soa como utopia recomenda que se deixe essa tão importante questão para ser discutida no próximo governo.





