EDITORIAL
Discurso e realidade
O presidente Fernando Henrique Cardoso fala bem quando se dirige às platéias internacionais, como faz agora em sua viagem por terras de Espanha, Inglaterra e França, e bem poderia ser apontado para presidir organismos onde os discursos eloquentes são valiosas ferramentas e onde a assistência está mais disponível para os aplausos.
Ao falar agora na Assembléia Nacional Francesa, FHC fez um discurso que encantou os presentes, e deve ter encantado a ele próprio. Nessas ocasiões nosso presidente é sempre amável, não faz críticas e nem impõe rótulos sobre ninguém. Lugares assim, onde só lhe basta falar e nada lhe é cobrado, são os hábitats naturais que muito o agradam.
Já os discursos em casa não lhe rendem muitas palmas, porque lá fora é a fantasia e aqui é a realidade. Para os ouvintes e críticos nacionais o presidente reserva qualificativos como os de vagabundos, nefelibatas opiniáticos, catastrofistas, baratas tontas e uma infinidade de outros carimbos.
Por conta de seus belos discursos, qualificam-no no exterior de líder da América Latina, o que não é um grande mérito considerando a posição dos outros países do sul do continente. Falta-lhe porém o título de líder do Brasil, porque apenas o de presidente da República não lhe confere tal condição.
Não há dúvida de que o intelectual Fernando Henrique empolga, quando em pátrias distantes utiliza suas sofisticações verbais na pregação de princípios democráticos e na condenação às desigualdades sociais no mundo. Mas nós brasileiros sabemos que FHC, na qualidade de presidente, pouco se incomoda com os problemas do país que governa. Ao viajar, deve imaginar que deixa atrás de si a casa arrumada, com tudo resolvido e sobrando-lhe tempo para agradáveis tertúlias com amigos intelectuais.
Quanto ao Brasil, este o presidente da República não o visita e pouco o conhece. São raríssimos os registros de, nestes sete anos de sua investidura presidencial, ele ter se dirigido às classes produtoras do País para conversar e ouvir as suas reivindicações. Fernando Henrique não se dá bem diante dessas platéias, que ele deve considerar lamurientas. Equivocou-se FHC ao imaginar o que seria ser presidente de um país e enfrentar de frente os seus problemas. Pensou, certamente, que só bastassem bons discursos e para nós brasileiros nem sequer ele os fez.
Existem dois homens distintos em Fernando Henrique Cardoso: um, o sociólogo e intelectual, que fala várias línguas e domina a linguagem das assembléias bem comportadas, onde não lhe façam cobranças; e o outro, o presidente da República do Brasil, um país que tem muitas questões a resolver e onde há cidadãos reivindicantes que esperam por decisões do seu grande chefe.
Os influentes jornais ''El País'', da Espanha, e ''Le Monde'', da França, dedicaram páginas inteiras para elogiar o político e social-democrata brasileiro. Algo que, visto isoladamente, dignifica nosso país. FHC, sem dúvida, é um diplomata, que poderia até ocupar o cargo de titular das Nações Unidas. Mas ele tem deixado muito a desejar como presidente de uma nação emergente do tamanho e das condições do Brasil.





