A autofalência da operadora de turismo Soletur - uma das maiores empresas do ramo do País - foi um abalo e causou prejuízo, primeiro, a grande número de clientes e, na sequência, a extenso rol de envolvidos no episódio. Só passageiros são 7 mil, que compraram pacotes da empresa, através das agências de viagens, e ainda não viajaram. A grande maioria deles perdeu, porque nem todas as agências operam com seguros. Os que emitiram cheques pré-datados podem sustá-los, e os que compraram com cartão podem igualmente suspender pagamentos futuros, mas o prejuízo já é enorme. A dívida da Soletur é de R$ 30 milhões, principalmente com bancos, companhias aéreas e hotéis.
São os estilhaços da guerra, iniciada com as explosões de Nova York e Washington e que afastou os viajantes, alguns por temor de embarcar em aviões, por causa dos sequestros e atentados, outros em função do alto preço do dólar - que já vinha subindo de longa data - e outros mais pela cautela de gastar suas economias em tempo de incerteza, como o do momento. Uma situação agravando outras. Não é à toa que, em face do temor de retração de consumidores, em todos os campos, países como os Estados Unidos e o Canadá providenciaram logo a baixa dos juros internos, para incentivar os empréstimos e os negócios e não cessar o giro da moeda.
Mas, se uma grande operadora encerra atividades e se as viagens dos turistas brasileiros para o exterior estancaram, a temporada de verão no Brasil está começando e é tempo de investir no turismo interno. Porque a maioria dos que costumam viajar todos os anos, nesta época, não deixará de fazê-lo; apenas mudará opções, com a preferência tendendo para os pacotes nacionais. O fluxo turístico não cessará internamente, e a boa notícia é que nossos vizinhos da América do Sul lotarão as praias brasileiras este ano, pelo indicativo das reservas já feitas. Isto significa grande giro de negócios e de dinheiro e, melhor, de dinheiro externo.
A informação desagradável, dada pelas agências de viagens, é que, mais uma vez, a inabilidade do empresariado nacional do setor - ao invés de embarcar na onda benfazeja que agora sinaliza para o turismo interno - já elevou o preço dos pacotes nacionais em 20%, sem nenhuma razão. E, de sua vez, as companhias aéreas do País puxaram o tapete das agências - elas que põem a bordo 70% dos passageiros - cortando a comissão delas de 10% para 7%, de seis meses para cá, o mesmo fazendo as companhias internacionais, cujo corte foi de 9% para 6%.
No lugar de estimular as agências e adotar o que seria uma política de incentivo e de gratidão, fizeram o inverso, punindo-as. Naturalmente que essa ganância de aumentar o preço dos pacotes e diminuir comissões terá reflexos negativos e retornará como bumerangue. A hora não é de implantar guerra dentro do próprio setor, mas de união.
A Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abav) precisará fortalecer-se agora, criar um bloco homogêneo e salvar o turismo nacional, porque esse importante segmento, que mobiliza milhões de reais, opera em grande parte por via de agentes de viagens, e eles precisam se impor ante os que detêm a infra-estrutura instalada, representada pelas companhias aéreas e de transporte turístico em geral, pela hotelaria e serviços paralelos e pelos próprios Estados onde se situam os grandes pontos de atração turística.
Atitudes como a absurda elevação do preço dos pacotes nacionais, num momento destes, é uma insensatez e uma demonstração de falta de amadurecimento. O episódio lamentável da autofalência da Soletur pode ser uma advertência para o roteiro a seguir. Se as tragédias e as crises, já desastrosas por natureza, geram consequências ainda mais funestas, deve-se tirar delas a lição e assim elas não acontecem em vão.

mockup