Em tempo de pré-eleição, os virtuais candidatos vinculados ao governo se mobilizam, e o povo ganha benefícios. O ministro da Saúde, José Serra, que quer ser presidente da República, veio segunda-feira ao Paraná lançar um programa nacional de bolsa-alimentação, destinado a proporcionar complementação alimentar a crianças, mães e gestantes, e assim diminuir a carência nutricional de 3,5 milhões de brasileiros.
O programa ainda é tímido, considerando que existem no Brasil 40 milhões de indigentes, segundo o IBGE. O governo de Fernando Henrique teve sete longos anos para dar atenção ao problema da suplementação alimentar, e só agora um ministro-candidato toma a providência, que chega tardia e insuficiente. De qualquer forma, mesmo que seja uma medida paliativa, é melhor que nada neste país onde pouco se espera dos governos, a não ser em períodos eleitorais, quando a prodigalidade aflora e os governantes passam a valorizar o povo - um curto período que vai do início da campanha até a posse dos eleitos, e depois tudo continua como dantes.
Imagina-se que num país como o Brasil, que tem excesso de produção de alimentos, sua população não devesse passar fome, mas ser, sim, a mais bem nutrida do mundo. Nesta terra prodigiosa a cada ano o volume das safras aumenta, graças à fertilidade do solo, à tecnologia e às benesses do tempo, então não se compreende como possa haver alguém padecendo de subnutrição. A resposta é curta e irrefutável: porque a desumanização não permite a equitativa divisão através de políticas que possibilitem a todos o acesso à riqueza nacional.
No Paraná, pelos números do IBGE, um grande contingente populacional não tem rendimento algum, mas essas pessoas precisam de alimentação, de atendimentos de saúde e todos os demais. Nosso Estado é riquíssimo em produção de alimentos, então há que rever as políticas públicas, de forma a que ninguém passe necessidade em meio a tanta abundância.
Na ausência de agentes imediatos que gerem empregos suficientes e permitam aos cidadãos viver do resultado de seu próprio trabalho, há que dar assistência a esses carentes de alimentação, e se a isso se dá o nome de assistencialismo - o menos desejado dos sistemas - será preciso adotá-lo, como meta de governo e sociedade.
Saltando dos 40 milhões de famélicos do Brasil para os 2,5 bilhões de famélicos do mundo - e também em escala mundial há suficiente produção de alimentos - chega-se sempre ao mesmo ponto: as políticas econômicas não permitem a distribuição para todos, enquanto a comida sobra para muitos e é desperdiçada em grande número de países.
Mesmo nações de classes média e pobre desperdiçam muito, Brasil incluído. Isto se dá por uma pobreza maior, que é a da mentalidade cultural. Desperdiça-se na colheita, no manejo, na armazenagem e na mesa de ricos e de médios e pobres. O que falta para muitos acaba nas latas de lixo do desperdício. Eliminar a fome é, pois, apenas questão de consciência.

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