EDITORIAL
São sempre bem recebidos quaisquer projetos e atendimentos assistenciais que visem garantir alimentação para os 44 milhões de brasileiros desnutridos. Agora, o Instituto Cidadania, vinculado ao Partido dos Trabalhadores (PT), lança o Projeto Fome Zero, que objetiva proporcionar segurança alimentar para o Brasil e que surge na caudal da campanha presidencial já em curso.
A proposta, resultante de pesquisas feitas por instituições ligadas à área e debatida por mais de mil especialistas em todo o País, visa a distribuição de cupons de alimentação, impressos pela Casa da Moeda, para beneficiar aquela imensa população de indigentes, metade dos quais com idade abaixo de 15 anos.
Esse projeto é público e nele podem se engajar empresas, partidos políticos, governos, entidades, cidadãos. Naturalmente, será uma das bandeiras do candidato do partido à Presidência da República, e abrange também políticas de reforma agrícola e agrária e outras ações de alcance social, que já fazem parte do ideário do PT. O sistema de cuponagem alimentar não é novo, porque já adotado no México e nos Estados Unidos.
O problema da fome nunca foi atacado com seriedade por nenhum governo brasileiro, constituindo apenas meta setorial, de importância secundária, mais próximo do assistencialismo do que de uma meta que ganhasse status de segurança alimentar. Assim foi com o programa Comunidade Solidária, de Dona Ruth Cardoso, e que se desmobilizou com a morte de Betinho; com o Fundo de Pobreza, criado no ano passado e que é um programa múltiplo e atende não só ao problema da alimentação aos carentes mas também a questões de saúde, saneamento, educação, infância etc.
Alimentar os pobres, no Brasil, nunca saiu do campo da caridade, e já era tempo de se pensar em algo oficial, inserido entre os grandes projetos governamentais. Abastecimento alimentar vem na esteira da correspondente produção, mas nisto o Brasil é auto-suficiente, por graça de sua terra fértil, da tecnologia das instituições de pesquisa e das benesses climáticas, e a cada ano mais aumenta o volume das colheitas, em todas as suas variantes.
Temos excesso de produção de alimentos se pensarmos apenas em suprir as necessidades internas; há mais que o suficiente para os brasileiros e ainda sobra para exportar; e existe muita terra não cultivada e uma vasta cancha para a pesquisa e a tecnologia avançarem. Somos um país abençoado por Deus e rico por natureza, mas são falhas as políticas de distribuição.
Melhor que o Brasil estivesse em condições de proporcionar empregos a todos os que estão em idade e condições de trabalho, com ganhos compensadores, para que o cidadão adquirisse pelos próprios meios a alimentação de que necessita. Mas enquanto essa meta não é alcançada, há que socorrer, e imediatamente, esses milhões - um quarto da população - que passam fome e padecem de subnutrição. Sem desprezo de outras metas, esta é emergencial. Tudo o que se investir em alimentação, para os brasileiros famintos, se economizará em gastos com atendimentos de saúde e todo o corolário de problemas sociais.





