Criar mecanismos de entendimento é sempre uma prática salutar, melhor que posturas egoístas de intransigência, com irrecuperável perda de tempo e nenhum resultado produtivo. Ao buscar a fórmula de criar a figura do interlocutor, para mediar as relações entre a Prefeitura e a Câmara Municipal, o prefeito de Londrina, Nedson Micheleti, demonstra não uma suposta ingerência no Legislativo, mas antes de tudo respeito por esse Poder e uma demonstração de boa vontade política.
Dá-se a esse mediador o nome de ombudsman, difícil de pronunciar mas eficiente nos resultados, se ele for competente. Negociadores, quanto mais melhor, e se eles tivessem existido em todas as horas graves das relações humanas, ao longo da história da humanidade, não estaríamos vivendo estes momentos de guerra no mundo.
Relações belicosas, como as que agora acontecem entre aqueles dois Poderes, em Londrina, significam ausência de diálogo, e se uma das partes acena por negociar, não há que intransigir. As facções contrárias à idéia, dentro da Câmara, argumentam que isto nunca aconteceu antes, porém esse fato não invalida a experiência. Sabe-se é que, o que antes existiu foi divergência e, em passado recente, muitas histórias de corrupção, o que dificultava a manifestação do ''espírito público'' de alguns dos edis.
A existência do vereador líder do prefeito não supre inteiramente o papel de mediador, porque ele é também um membro da Casa, portanto um votante, sujeito a oposições de ordem político-partidária. Talvez, ainda melhor que um interlocutor apenas, fosse uma seleta minicâmara de conselheiros, extraídos a dedo do meio social e que atuariam sem remuneração e tão somente por espírito público. Bons e insuspeitados nomes para isso não faltam.
É certo que os Poderes devem ser independentes, porém se recomenda que sejam também harmônicos entre si. Naturalmente, como alerta a vereadora Elza Correia, os projetos não devem chegar à Câmara com vícios de origem, mas é por isso que o Legislativo é um fórum de exame e discussão, ademais cercado de assessorias, que existem justamente para esse fim.
O que os cidadãos não querem mais é ouvir rumores sobre corrupção na administração pública - tão presentes e, afinal, comprovados, na gestão anterior, e que resultaram na cassação e até na prisão temporária do prefeito - e de vereadores que só aprovam projetos mediante propina. A sociedade conhecia certos vereadores e administradores públicos que tinha e - no linguajar de Jânio Quadros, referindo-se a políticos e pessoas - facilmente identificáveis pelos seus ademanes (isto querendo dizer trejeitos); assim como se tem certeza que um lobo é um devorador de cordeiros.
O prefeito diz que há um segmento, na Câmara atual, em que o diálogo não flui, ''por diversos problemas''. Estranha que problemas possam existir, mas há que se saber quais são. Os vereadores ''problemáticos'' deveriam dizer publicamente o que os aflige. Algo que se possa resolver através de um psicólogo; ou quem sabe é alguma coisa pior, eventualmente um vírus da administração passada... Isto um ombudsman não pode solucionar, a menos que se disponha a prestar tal tipo de atendimento, mas não é para isso que ele deve existir.

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