Enquanto os Estados Unidos e seus aliados, neste momento, semeiam destruição pelo mundo - sendo os EUA, ademais, tradicionais poluidores ambientais - o Brasil ganha créditos ao retirar dióxido de carbono da atmosfera. Pela mão benfazeja da floresta amazônica. Isto resulta em créditos que poderão ser vendidos aos países poluidores. Créditos não apenas morais, mas reais, em dólares. Por ora dados gratuitamente ao mundo.
O teólogo e escritor Leonardo Boff levanta essa questão, em entrevista publicada segunda-feira neste jornal. Ele alerta que a absorção daquele gás poluente, pelas árvores, gera uma dívida das nações para com o Brasil, e que temos o direito de cobrá-la.
Não é de hoje que essa questão é levantada, mas o governo não mexe nisso, quem sabe para não melindrar os poderosos países poluidores, Estados Unidos em primeiro lugar, com 25% das emissões globais. Fôssemos um país com grande reserva em dólares, poderíamos nos dar esse luxo, mas ocorre que temos uma dívida externa monumental, e os superávits esporádicos da balança comercial jamais pagarão essa conta. Mal cobrimos o serviço da dívida.
As nações poluidoras têm para conosco esse débito, que somam alguns bilhões de dólares. Se o Brasil já comete a omissão de não se impor e cobrar essa conta - por frouxidão do governo - um mal maior e extremamente perigoso ronda a Amazônia não defendida. Trata-se do projeto tramitando no Congresso que propõe a diminuição das áreas florestais protegidas, permitindo que sejam exploradas pela agricultura e outros extrativismos. Mais grave que os atentados recentes que abalaram o mundo e que a guerra que agora se trava, é esse projeto. Acontecendo aqui no Brasil, por vontade de políticos brasileiros.
De sua vez, José Goldemberg, que foi secretário do Meio Ambiente da Presidência da República, alerta para outros pontos, como o fluxo de desmatamento da floresta amazônica, afirmando que só no ano passado foram postos abaixo 17 mil quilômetros quadrados de matas, equivalentes ao tamanho do Estado de Israel, e que essa depredação continua. Ele diz que 14% da floresta foram destruídos e que, na marcha atual, outro tanto terá o mesmo fim, nos próximos 20 ou 30 anos.
O temor de Goldemberg é que, com a recusa dos Estados Unidos em assinar o Protocolo de Kyoto - que impõe a redução do nível de emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa - o Brasil venha a ser induzido pelos Estados Unidos (como induzidos foram a Índia e a China) a negligenciar em sua política ambiental; isto significando desprezar ainda mais a preservação da Amazônia.

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