EDITORIAL
''Esta é uma guerra entre os que crêm em Deus e os ímpios'', diz Osama bin Laden. ''Esta é uma luta entre a democracia e a tirania'', declaram George Bush e seus aliados. O certo é que ambas as correntes estão enganadas e fazem desta guerra - como aconteceu com todas as anteriores - uma guerra de equívocos. Por isso fadada a repetir-se. Estão erradas as armas e errados os alvos; porque são efeitos atacando efeitos, sem se atentar para as causas. A guerra santa seria, isto sim, a das causas contra as causas, e isto exigiria não poderio militar mas sabedoria, para entender, negociar e fazer concessões.
As causas são, de um lado, nações poderosas economicamente, e de outro nações oprimidas. As primeiras, porque têm muito a perder, as outras justamente porque nada têm. Estas, então, ficam mais astutas e usam as armas dos próprios inimigos e com elas os atacam. Se antes o fizeram, muitas vezes o farão, enquanto persistirem as razões. A miséria social e a opressão são péssimas companheiras aos que estão aprisionados em suas malhas, e induzem a atitudes extremas.
George Bush e Osama bin Laden, no papel de catalisadores de pressões e opressões, têm as mesmas crenças e os mesmos ideais, e acreditam firmemente que fazem, cada qual, uma boa guerra. Por God e por Alá. É certo que as nações poderosas têm sofrido as consequências daquilo que vieram semeando. O alvo errado da presente guerra é a figura de um combatente e seus seguidores, e por conta disso instalações militares e pontos estratégicos são destruídos, levando de roldão soldados e civis, com grandes abalos emocionais no mundo inteiro. O alvo certo deveria ser o desnível social entre os povos, resultado do enriquecimento desmedido de certas nações, em prejuízo de outras e, em boa parte, à custa delas - fatores que levam aos atentados e aos confrontos armados.
Um notável sanitarista declarou certa vez que apenas o dinheiro de um avião bombardeiro seria suficiente para curar todos os leprosos do mundo. Só com o investimento nas guerras, portanto, sobram recursos econômicos - embora eles estejam nas mãos de poucos - para eliminar os problemas do mundo e aplainar as diferenças sociais que afligem a humanidade. São estas as causas que não são atacadas, e o revide que agora acontece só irá agravá-las. Não há sabedoria nos quartéis, porque ali apenas se conhece a doutrina da força bruta. Portanto, os problemas que atormentam os países pobres e os povos oprimidos não serão eliminados por via militar, porque o campo dessa batalha situa-se nas mesas das negociações e no fundo das consciências.
Os Estados Unidos e seus aliados, que formam o bloco dos grandes, dariam um enorme passo para eliminar esta guerra, e evitar as futuras, se aproveitassem a lição de 11 de setembro para reprogramar suas políticas externas com relação aos povos pobres do mundo. Este é o único caminho para neutralizar a ação dos denominados de terroristas. Até no emprego dessa palavra reside um preconceito, eis que terrorismo são os atentados, como os do mês passado, e toda a forma de expoliação e boicote praticados pelas nações e organizações poderosas, ao longo da história.
O esforço de guerra conjunto que agora se verifica - emanado do arbítrio de governos e não dos cidadãos conscientes do mundo - é uma eloquente demonstração de que as nações dispõem de vontade, recursos e estratégias para unir-se e fazer uma guerra de destruição. Portanto, capazes também de realizar o contrário, com o mesmo vigor, e soerguer as nações arrasadas pelo subdesenvolvimento. Os povos civilizados têm a obrigação de unir esforços para conduzir os Estados Unidos nessa direção. Esta será a única forma sadia e proveitosa de ajudar este país tão rico e tão poderoso, mas tão dependente de guerras e de exploração dos fracos para sobreviver.





