Editorial
A Bolsa de Valores de Nova York registrou, sexta-feira, a maior queda desde o violento crash de 1987. E como, neste mundo cada vez mais globalizado, o que acontece num lugar - ainda mais no maior centro financeiro do mundo - afeta todo o planeta, a queda em Nova York provocou baixas também no Brasil, no México e na Argentina. Não se trata, felizmente, de algo tão drástico como o grande crash de 1929, que derrubou fortunas, arrasou a economia dos Estados Unidos e causou a grande depressão dos anos 30, que teve profundas consequências no mundo inteiro. Mas é um fato preocupante, no quadro atual das finanças do mundo, em função da crise na Ásia.
A única coisa capaz de neutralizar ou reduzir ao mínimo as consequências de crises como essa é a credibilidade dos países em seus governos. Quanto maior a confiança, mais rápido passa o temporal e menos danos acontecem. Muitas vezes a crise é artificial e puramente especulativa. É o caso presente, e aí o melhor bombeiro continua sendo a seriedade dos governos envolvidos e a confiança que inspiram na sociedade.
As Bolsas são, ao mesmo tempo, pontos de referência para a economia - enquanto captadoras de capital ocioso para investimentos produtivos - e instrumentos extremamente sensíveis aos movimentos especulativos. Neste segundo aspecto, inerente ao negócio, elas são um perigo para os amadores. Piores do que cassinos, porque em cassinos a especulação é impossível. Nas Bolsas, o jogo é outro e há muito espaço para a ação de espertalhões.
Durante a semana, a ação dos especuladores, notadamente pela Ásia, foi intensa. Enquanto FMI, Estados Unidos, Japão, Europa e até a China tentavam encontrar um meio de sanear as finanças da Tailândia, pior vítima da crise, os especuladores continuavam a agir contra as moedas dos países da região, conturbando o clima financeiro de todo o mundo. E não há dúvida de que é a ação de espertalhões - os mesmos ou não - que está provocando insegurança em Nova York e, por extensão, nas três Américas.
O que acontece na Ásia tem a ver, pelo menos em parte, com a instabilidade política e a falta de confiança em relação aos governantes. Um boato lançado em uma situação de falta de credibilidade tem muito mais possibilidades de proliferar do que se existisse um clima de estabilidade no país.
Todos os países têm legislação específica para proteger suas Bolsas e os investidores. Entretanto, a esperteza é um fenômeno mundial cada vez mais aprimorado e mais rápido que a lei. Quando se percebe, o mal já aconteceu, e vinha acontecendo muito tempo antes. A credibilidade interna é mais forte que a lei e imprescindível. Mas como isto não se consegue sem mais nem menos, os países que estão mais adiantados no caminho passam mais rapidamente por essas turbulências e saem mais inteiros do que outros.
O Brasil, naturalmente, sente os efeitos desses eventos, ainda mais quando ocorrem em Nova York. Por mais distantes que estejam daqui, as dificuldades da Tailândia ou de Cingapura ou de qualquer dos países de economia emergente da Ásia, alguns com características semelhantes às nossas, produzem danos indesejáveis. Mas se for mantida a confiança pública - o que, felizmente, existe hoje no Brasil - os reflexos serão menores. As autoridades devem se manter atentas para, principalmente, não perder a credibilidade junto a seu povo.





