EDITORIAL
Mísseis brasileiros
Parece que os exemplos recentes de Nova York e Washington, que ainda abalam o mundo, não serviram de lição para a oficialidade brasileira, ao menos quanto à política armamentista, porque a Aeronáutica acaba de incluir na lista de suas prioridades o desenvolvimento e a fabricação intensiva dos mísseis de defesa antiaérea já conhecidos como MAA-1.
Esse projeto faz parte de um discutível programa de fortalecimento do controle do espaço aéreo nacional e prevê a produção inicial de 100 dessas unidades. Tal armamento destina-se a operações de patrulha e interceptação e é considerado a primeira produção bélica inteligente projetada no País.
O plano é tanto estratégico quanto econômico, pois a meta é também exportar esse balístico, através da Embraer. Faz anos que esse projeto vem sendo desenvolvido pela Mectron Engenharia, empresa comandada por engenheiros do Instituto Técnico da Aeronáutica, em São José dos Campos.
A necessidade de uso interno desses mísseis é improvável - e melhor que assim seja - então, no que respeita aos gastos exorbitantes com esse armamento, trata-se de uma insensatez num país de tantas carências sociais e com prioridades mais relevantes. Quanto à política de venda externa, isso significa o Brasil contribuindo para armar nações, e dessa forma assumindo responsabilidade sobre o uso que for feito dessas armas mortíferas e destruidoras.
Enquanto os engenheiros se ufanam dos resultados desse projeto, considerando-o ''a vitória da persistência tecnológica brasileira'', os cidadãos deste país com toda certeza não vêm com simpatia a idéia de gastar fortunas para equipar a Força Aérea Brasileira com tal armamento e de receber dólares por conta de um produto que não contribuirá para melhorar o mundo, e sim para piorá-lo. O investimento nesse projeto será de 20 milhões de dólares.
Diante de uma decisão como esta imagina-se o quanto faria a agricultura brasileira com tamanha disponibilidade de recursos, na produção de alimentos para um mundo faminto. Dá para pensar que, com 20 milhões de dólares, se poderia desenvolver programas de irrigação do Nordeste, com resultados úteis para populações necessitadas.
Entusiasma aos engenheiros e fabricantes envolvidos no processo a criação, desenvolvimento e produção de armas de guerra, mas foi esse mesmo entusiasmo que levou os Estados Unidos a armar o mundo e acabar sofrendo as consequências dessa insensatez. Um país fornecedor de armas será sempre vulnerável e sujeito a, um dia, ser vítima da imprudência que pratica. Armar-se internamente e armar outras nações será sempre uma incitação às guerras e uma declaração de desconfiança nos povos vizinhos e distantes.
A nação brasileira não deseja ver-se envolvida em políticas armamentistas e nem quer dólares que tenham origem no fornecimento de armas. Gostaria, isto sim, de ver sua agricultura e sua indústria produzindo alimentos, máquinas e equipamentos úteis à humanidade, e prestando serviços de natureza limpa, que contribuíssem para edificar um mundo melhor.





