Uma guerra doméstica
Muitas guerras estribaram-se em fundamentos de cunho religioso, e esta que agora ocorre no mundo, envolvendo a humanidade inteira em clima de apreensão, também encontra respaldo em crenças de que os Céus estão assumindo uma posição, cada qual imaginando que seja do seu lado. Os fundamentalistas islâmicos, que têm abrigado terroristas e apontam razões para as suas lutas, crêem que é bom o combate que travam e que Alá os acolherá em seus braços se entregam em holocausto a própria vida.
Não é diferente a posição religiosa americana, alicerçada nos ensinamentos bíblicos do evangelismo, segundo os quais a prática do amor a Deus e o próximo pode requerer o uso da força. No dizer de destacado líder dessa crença, ''somente os que confiam em Deus são ousados para atos nobres'', em sutil referência a ações de revide, ''custe o que custar''.
Mas não vamos longe: em Maringá trava-se uma guerra doméstica quase idêntica e que há bastante tempo frequenta as páginas dos jornais e os noticiários de rádio e televisão. Trata-se de disputa entre o famoso pastor Miranda Leal, líder de uma rede de igrejas, homem rico, que tempos atrás desapareceu da cidade levando todo o dinheiro do caixa dessa organização religiosa, e agora retorna, não sem criar novas confusões.
Quinta-feira, cerca de cem pastores da Igreja - denominada ''Só o Senhor é Deus'' - reuniram-se em Maringá e fizeram uma carreata para protestar contra liminar da Justiça que garantiu ao pastor a propriedade de uma emissora de rádio, em Londrina. A guerra está em definir a quem ela pertence: se ao chefe dessa cadeia de templos ou se à igreja. Já houve vários atentados aos transmissores da emissora.
Imagina-se que tais coisas não deveriam acontecer dentro de corporações religiosas, já que os fundamentos que apregoam dizem outra coisa e exaltam as virtudes e o desapego às coisas terrenas. No entanto, essas igrejas - que ganharam grande força nas últimas décadas - têm forte apelo na indução dos fiéis a contribuir com ajuda financeira, não só em forma de dízimos mas também de outras diferentes manipulações, como exóticos leilões de suarentas gravatas dos pregadores, a pretexto de que são ungidas pela santificação. No caso do pastor Leal, aconteceu, ademais, o agravante de os fiéis haverem sido iludidos na boa-fé e roubados, o que caracteriza estelionato.
Os abusos de certas corporações religiosas têm passado imunes a investigações, porque, para não ferir o princípio da liberdade de culto, previsto na Constituição, vigora uma certa tolerância a práticas especulativas de algumas Igrejas. Porém, vai se estreitando cada vez mais o limite entre essa liberdade e os abusos à fé pública.
O episódio de Maringá só chegou ao conhecimento público por causa da fuga do pastor e da apropriação que fez de dinheiro da igreja - cerca de R$ 6 milhões - mas certas práticas são bastante conhecidas e já extrapolam os princípios do direito de culto e avançam para o perigoso caminho da ilegalidade, caracterizando exploração sobre pessoas simples e crédulas, em troca de promessas de salvação eterna.

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