EDITORIAL
O racial profiling
Enquanto os serviços de inteligência bélica dos Estados Unidos arquitetam os planos de como atacar os países que dão abrigo ou apoio aos terroristas, uma guerra paralela se trava dentro do território americano, contra os imigrantes árabes e (ou) muçulmanos e descendentes. É o ''racial profiling'', ou perfil racial, que permite à polícia parar e interrogar suspeitos, e tal se baseia apenas no aspecto físico e na cor da pele das pessoas.
O que teve início em Nova York já se espalha pelo país, porque além de interrogatórios e prisões na cidade vítima do grande atentado da semana passada, tem-se notícias de que americanos mais radicais, em vários Estados, passaram a tratar com hostilidade a comunidade árabe, ou partem para o ataque direto. Um homem lançou seu carro contra uma mesquita em Ohio, um paquistanês e um indiano foram baleados e mortos no Texas, e tudo indica que sejam crimes raciais. Na cidade de Dallas três mesquitas foram atingidas por balas e bombas. Um jovem brasileiro foi confundido como descendente dessa nacionalidade e sofreu agressões físicas, com o braço e o nariz quebrados, e em face disso já retornou ao Brasil.
Isto faz lembrar os tempos da caça aos comunistas nas nações de regime capitalista, o que atendia aos anseios da corrente ideológica que emanava dos Estados Unidos e acontecia no ardor da guerra fria que se travava entre as duas grandes potências mundiais - EUA e União Soviética. Foi sob a inspiração dessa cruzada que nações endureceram suas ações contra suspeitos de professarem ideologias socialista, e que, no Brasil, gestou a ditadura militar anticomunista, que se arrastaria por quase duas décadas.
O que os Estados Unidos desejam agora dos seus aliados não é diferente do que aconteceu antes. No que respeita à América, seu interesse, naturalmente, é - pela via do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca - uma posição continental contra os recentes ataques de que foram vítimas. Recorde-se que em 1982 a Argentina recorreu a esse mesmo Tratado, para proteger as Ilhas Malvinas dos ataques da Inglaterra, mas os países que integram esse acordo não adotaram nenhuma ação conjunta, simplesmente porque o presidente americano Ronald Reagan colocou-se ao lado dos britânicos.
Certamente que a eliminação do terrorismo no mundo não ocorrerá pela via das hostilidades a imigrantes árabes e seus descendentes, em território americano ou eventualmente em outros países, nem pelo revide armado que os EUA planejam agora contra o Afeganistão (que abriga o megaterrorista e milionário saudita Osama bin Laden). Porque os líderes do terrorismo poderão ser capturados, mas o espírito desse movimento persistirá, com outros comandos, uma vez que as causas fundamentais não são levadas em conta pela grande potência bélica e econômica do mundo, e nem há indicativos de que o sejam a curto prazo.
Os cidadãos americanos - favoráveis, por unanimidade, a uma guerra total contra os países que abrigam terroristas - não conhecem muito bem a política de seu próprio país com relação aos povos do mundo, e em momentos como este agem impulsionados pela emoção, depois do abalo que acabam de sofrer. Mas é certo que a humanidade, que não vive dentro das fronteiras da ideologia americana e contempla o mundo sob uma visão mais ampla, não é simpatizante da idéia de submeter-se aos horrores de mais uma guerra - isolada que seja mas de reflexos globais - por conta de um ideal de vingança e de brios feridos apenas de uma nação, poderosa que seja mas longe de ser inocente.





