EDITORIAL
Vozes do bom senso
Já não parece tão unânime e incondicional o apoio das nações aliadas dos Estados Unidos ao seu propósito de uma guerra em escala total, contra os países que abrigam ou apóiam terroristas. Até porque ainda não se sabe quem são os verdadeiros autores intelectuais dos atentados da semana passada, e também porque os EUA não anunciaram como será essa retaliação. ''Existe uma nova maneira de fazer as coisas por aqui, e não é mais sob o sol'', apenas disse um funcionário militar americano em resposta a indagações populares sobre a forma de guerra que o presidente George Bush e os estrategistas do Pentágono pensam em adotar.
Por essas razões, países vinculados à Aliança Atlântica estão divididos quanto à necessidade de uma participação militar. O próprio Reino Unido, tradicional aliado dos EUA, colocou à disposição forças terrestres e aeronavais, mas advertiu que não há a intenção de ''dar um cheque em branco'' ao governo americano. A Alemanha, que prometeu facilitar soldados se Washington pedir, alertou sobre os perigos de uma resposta militar e defendeu a aplicação de meios políticos e diplomáticos. Itália e Grécia descartaram a possibilidade de ceder soldados. Portugal alertou para o risco de se cair ''numa lógica belicosa contra inimigos imaginários''.
Países árabes solidarizaram-se, no início, aos Estados Unidos, mas estão revendo essa posição depois que vozes começaram a questionar a real definição de terrorismo no entendimento dos Estados Unidos, o que não deve ser confundido - proclamam essas vozes - com lutas de libertação. O Egito manifestou-se contrário a uma coalizão que não seja formada sob os auspícios da ONU. ''Antes de coalizão tem de haver uma definição clara de terrorismo'', escreveu um semanário egípcio, próximo do governo, destacando que não se pode confundir grupos terroristas com movimentos de resistência à ocupação israelense como o Jihad Islâmico (dos palestinos) e o Hamas e o Hezbollah (dos libaneses).
A Síria considera que ''o mundo que se apressa em combater o terrorismo tem de recordar que Israel (nação que tem a proteção dos EUA) pratica terrorismo em alto estilo''. A Jordânia diz que é fundamental, para erradicar o terrorismo, resolver as grandes crises regionais, sobretudo a israelense-palestina.
E, de sua vez, o Brasil assume a posição de se opor ao apoio militar dos países da Organização dos Estados Americanos (OEA) em caso de conflito direto com o Afeganistão. E anuncia que vetará qualquer sugestão que for feita ao Conselho Permanente da OEA em favor de ação americana de combate a possíveis focos terroristas, localizados em territórios que compõem a Organização. É clara a posição brasileira em colaborar em um plano mais diplomático do que militar. Também está afastada a possibilidade de participação do Brasil em forma do envio de soldados ou armamentos, em caso de um ataque ao Afeganistão.
Se os povos sensatos condenam as ações do terrorismo, também condenam revides pela via armada que venham a atingir as populações civis. Grandes males como os atentados de Nova York e Washington, que resultaram em muitos mortos e feridos e em gigantescos danos materiais, não justificam outros em igual intensidade, com igual risco para cidadãos inocentes. Essa preocupação não está fazendo parte do vocabulário do presidente George Bush e nem do ideário do povo norte-americano, que deseja uma guerra em escala total contra os países que escondem ou dão suporte a terroristas. Isso pode significar destruição de cidades e morticínio indiscriminado - a mesma tática dos terroristas - o que parece não entrar na conta do fundamentalismo americano.





