EDITORIAL
Pela ausência de diálogo
O ódio extremo é sempre péssimo conselheiro, e este é um momento em que 260 milhões de norte-americanos vivem a agonia de buscar vingança ante os atentados de que foram vítimas sete dias atrás. Não há sofisma quanto à unanimidade dessa posição, porque pesquisa realizada logo após os acontecimentos de Nova York e Washington mostrou que 94% da população dos Estados Unidos é a favor da retaliação por via armada.
Os governantes, na grande potência do Norte, seguem a tendência dos seus cidadãos, e essa corrente - que é um forte traço da democracia interna americana - mais se reforça se, como no caso presente, tanto o presidente George W. Bush como o vice-presidente Dick Cheney são tão ardorosos defensores da recorrência às armas ante alguma manifestação externa que fira os brios nacionais.
Bush herdou do pai, ex-presidente dos EUA, esse ideal, e conta hoje com o incentivo de um forte aliado e homem de muito poder na Casa Branca. Ninguém senão o vice-presidente Cheney, o homem que foi o estrategista-mor da Guerra do Golfo quando era secretário da Defesa do presidente George Bush pai. É esta mesma pessoa que está, agora, elaborando os planos militares contra os terroristas e tem papel fundamental nas decisões de guerra que estão sendo tomadas.
Estribada na força da opinião pública americana - que induziu primeiro o Senado e a seguir a Câmara dos Representantes a aprovarem imediatamente a decretação de guerra solicitada pela Casa Branca - a impulsão para o confronto armado, com força total e a qualquer preço, não tem opositores dentro dos Estados Unidos. É uma unanimidade nacional.
Quanto ao ardor pela adoção de ações extremas e a intensidade do ódio que os move e os cega, aqueles dois comandantes da mais poderosa e mais bem armada nação do planeta não diferem muito dos líderes terroristas do mundo. O alvo primeiro da contra-ofensiva americana é o Afeganistão, que abriga o megaterrorista Osama bin Laden, e, embora se diga que o revide privilegiará os ataques furtivos e as táticas não-convencionais, não se pode descartar que as populações civis sejam atingidas. Não é à toa que cidadãos do Afeganistão já começam a abandonar o país.
E, em meio às informações e contra-informações, um site da Internet divulga agora que a alegria manifestada, supostamente, por civis palestinos, e cuja razão seriam os atentados em NY e Washington que ao mesmo tempo as redes de televisão americanas mostravam ao mundo, era em função de um evento esportivo, mais especificamente o final da Copa do Mundo de 94, vencida pelo Brasil. Nas imagens vê-se um menino com a camiseta da Seleção Brasileira, e outro mais, vestindo outra com a estampa de uma bola de futebol. As bandeiras que aparecem seriam da Arábia Saudita e não da Palestina. De fato, não se viu, nenhuma manifestação escrita em eventuais cartazes e nem declaração verbal de algum dos manifestantes que se relacionassem com os atentados.
Os acontecimentos da semana que passou foram fortes demais para não motivar a comoção da humanidade inteira, e tudo o que ocorrer doravante terá influência sobre cada um dos habitantes da Terra. Reflexos políticos e econômicos recairão sobre todos. E, ironicamente, essa guerra que está começando também trará benefícios, pelo redirecionamento que inevitavelmente ocorrerá na adoção de estratégias e na condução das políticas da economia mundial.
As nações mais sensatas também verão que a manutenção de gastos elevados com seus exércitos será uma exorbitância, quando não uma inutilidade e um desperdício de recursos econômicos, tão necessários para os atendimentos sociais e para as causas salutares do desenvolvimento. Países que nada devem, nada têm a temer e nunca serão alvos de atentados.
Ofensivas e contra-ofensivas significam ausência e incapacidade de diálogo. O caminho mais curto e infinitamente menos dispendioso para colocar um fim nesses conflitos humanos é, sem dúvida, o das negociações e da disposição para concessões. O revide poderá eliminar os terroristas de agora mas criará outros, se as nações poderosas - Estados Unidos na vanguarda - não abandonarem suas políticas de espoliação sobre os povos pobres e oprimidos deste mundo.





