EDITORIAL
A exacerbação do terrorismo, manifestada nos atentados de Nova York e Washington, mostra antes de tudo o quanto são capazes esses grupos extremistas e a fanática dedicação que devotam aos seus propósitos, a ponto de entregar em sacrifício a própria vida, caso dos pilotos suicidas a que o mundo perplexo acabou de assistir. Mas expõe também a face dos Estados Unidos aos cidadãos comuns do mundo, estes que pouco se interessam em conhecer a origem dos problemas, mas apenas observam ou sofrem os seus efeitos.
Uma amostragem dessa face é a advertência atemorizante feita sexta-feira pelo presidente George Bush e que reflete a posição da imensa maioria da população americana de que ''as pessoas que derrubaram estas torres (as do World Trade Center) vão nos ouvir logo''. E mais: ''Este conflito começou num momento e em termos escolhidos por outros; ele terminará de uma maneira e numa hora de nossa escolha.'' Isto significa que virão ataques pesados aos países que abrigam grupos ou líderes terroristas ações a que ficam expostas também as populações civis.
A fúria do terrorismo é a mesma que, neste momento, move a nação americana, e se teme que o presidente Bush, defensor declarado da filosofia do armamentismo e de soluções pela via das guerras e agora já com a aprovação do Congresso para iniciar a contra-ofensiva venha a adotar medidas drásticas demais e que resultem em danos também para os habitantes desses países-alvos. Hiroshima e Nagasaki que o digam. Não está afastado o temor de que o troco se converta em algo tão desastroso quanto a agressão de que os Estados Unidos foram vítimas na última terça-feira.
Outra face que ficou exposta para o grande público, pela oportunidade que o momento propiciou, é a política discriminatória dos EUA contra os países que lhes são antagônicos, materializada ao longo dos anos pela imposição de barreiras comerciais e boicotes econômicos, o que gerou tensões e reações, a qualquer preço e sem medidas. O favorecimento dos EUA a certas nações, em detrimento de outras sobretudo na região que envolve o mundo islâmico expõe o lado falho da diplomacia americana e a sua incapacidade de dialogar e encontrar fórmulas mais sábias do que o recurso dos boicotes e das soluções armadas.
Esta é uma faceta não compreendida da nação tida como a mais democrática do mundo (ao menos quanto à sua política interna), mas que ao mesmo tempo assume atitudes estranhas como o afastamento da Conferência Mundial Sobre o Racismo, que acaba de acontecer em Durban, na África, e a recusa em assinar um termo como o Protocolo de Kyoto, que visa diminuir a emissão de gases venenosos contra o meio ambiente. Isto porque são os Estados Unidos os maiores poluidores.
O terrorismo é um mal, mas é ainda efeito e não causa, porque se sabe que em tempos de ''boa vizinhança'' foram os EUA que treinaram pilotos e especialistas em guerra moderna, de muitos países, e também lhes venderam armas e tecnologia, a favorecer os grandes interesses da indústria bélica americana. E não apenas os EUA mas também outros países, que não perderam a oportunidade de formidáveis vendas de armamentos, quando conveio. Brasil incluído.
Foram as nações tecnologicamente desenvolvidas que disseminaram armas e ensinamentos bélicos pelo mundo afora, e é no mínimo paradoxal que agora se manifestem estupefatas com as consequências, que irrompem de formas diversas, inclusive pelo terrorismo armado. Ocorre que eram outras, então, as relações, e porque havia, também como sempre houve interesses poderosos em jogo, o principal deles os negócios com armamentos e a doutrina da proteção mútua contra inimigos declarados ou imaginários. Nesse vasto e aparentemente infinito universo que envolve a indústria das guerras e as políticas de protecionismo das nações um bloco contra outro, sempre ao gosto dos Estados Unidos não há inocentes.





