Os desafios dos prefeitos

Faltando duas semanas para a posse dos prefeitos eleitos, todos eles já estão devidamente informados da situação financeira e administrativa de seus municípios. Praticamente sem exceção, todos vão enfrentar, qualquer que seja o tamanho do município, desafios que exigirão uma nova mentalidade, determinação e competência. A situação de muitas prefeituras é quase catastrófica. E mesmo quando não chegam a tal ponto, passam por sérias dificuldades: muitas não têm recursos para cumprir suas obrigações, inclusive o pagamento dos salários de dezembro e do 13º salário, sem falar que outras estão com os salários de vários meses atrasados. Fornecedores também estão com pagamentos atrasados, e isto não ocorre somente nos municípios em pior situação.
Como ressaltou o prefeito eleito de Londrina em entrevista à Folha de Londrina no último domingo, em começo de mandato não se deve esperar senão muitas dificuldades. As coisas só poderão melhorar se os novos prefeitos assumirem dispostos a implantar no setor público, e a partir deles mesmos, uma nova mentalidade. Por exemplo, durante muitos anos prefeituras em perigo equilibraram-se na corda bamba atrasando pagamentos, salários inclusive. Com a desvalorização da moeda, a despesa ficava menor. Hoje, com pouca inflação, atrasos não surtem mais esse efeito. Ao contrário, a despesa permanece duramente real. A mudança de mentalidade exigida é no sentido de se buscar sempre o equilíbrio entre receita e despesa, pois os velhos estratagemas não funcionam mais.
Não só prefeituras, mas governos estaduais e a própria União estavam entre os que se beneficiavam de outro truque aposentado pelo Plano Real. Era a ciranda financeira, propiciada pelos juros elevados e por uma inflação galopante. A aplicação do dinheiro na ciranda rendia tanto que dava para tapear a contabilidade e tapar uma parte dos rombos do caixa. A derrubada da inflação criou problemas para a sustentação dessa mágica. Infelizmente, foram poucos os administradores que buscaram se adaptar à nova situação, racionalizando as atividades, contendo despesas e tratando de enfrentar uma realidade econômica diferente.
Também não tem mais cabimento, como no passado, inventar impostos, taxas e contribuições ou aumentar alíquotas de tributos já existentes para engordar a receita. Simplesmente porque o povo não aguenta mais pagar. Qualquer coisa nessa linha é um convite oficial à sonegação e ao descrédito.
Para os prefeitos que vão assumir, o desafio fundamental será, precisamente, o de redimensionar a atividade pública e gerenciar de modo adequado e criterioso seus municípios. Os obstáculos serão grandes, ainda mais porque a maioria vai encontrar prefeituras quebradas e dívidas. Não haverá, porém, como fugir à realidade. A continuidade do processo de estabilização passa por uma reforma profunda na vida pública. O déficit de prefeituras, dos estados e da União constitui, hoje, um dos maiores entraves ao sucesso do Plano Real e isso preciso mudar.
A população brasileira não aceita a volta da inflação desenfreada e todos os seus males. O momento é crucial para que ocorra o ajuste das administrações públicas a esta nova fase da vida nacional. Os prefeitos, detentores, como sempre quando são eleitos, da esperança maior do povo, têm um compromisso muito maior que o de realizar as obras que prometeram nos palanques. Precisam estar conscientes de seu importantíssimo papel neste momento da vida nacional. Têm que enfrentar com firmeza as tormentas iniciais para reordenar as finanças de seus municípios, inclusive porque só a partir de uma administração consciente e empenhada no equilíbrio financeiro é que poderão levar até o fim a missão que receberam nas urnas.

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