EDITORIAL
Os dias seguintes
Certamente que os Estados Unidos reconstruirão, no lugar do World Trade Center, um edifício de idênticas proporções ou ainda maior, e com mais sofisticados sistemas de segurança. A opulência norte-americana, que já está manifestada sob as mais distintas formas e em todos os campos da atividade humana, não sofrerá desgaste pelo fato de um dos seus símbolos haver desabado. Mas é certo que corações e mentes da poderosa nação ao norte do Rio Grande pulsam hoje em outro ritmo e segundo novas concepções.
Povo guerreiro no sentido literal da palavra até por necessidade de preservar-se e preservar os seus interesses no mundo os norte-americanos nem sequer esqueceram Pearl Harbor e ainda não absorveram a inutilidade que foi a guerra do Vietnã, a não ser haver beneficiado a indústria bélica do país, mas ao custo de um grande prejuízo para a imagem dos Estados Unidos.
Imagine-se como irão absorver essa agressão dentro de sua própria casa, como a ocorrida terça-feira! Que, ademais, demonstrou a fragilidade de todos os sofisticados sistemas de defesa contra ataques externos, explícitos ou de surpresa, e mexeu com os brios da inteligência estratégica que habita o Pentágono e as câmaras secretas da Casa Branca.
O presidente George Bush é um ardoroso defensor do rearmamento do país, segundo moderníssimos sistemas, já havendo solicitado ao Congresso a aprovação de fabulosas verbas para construir suas ambicionadas barreiras antimísseis, que segundo sua concepção colocariam o território americano na mais absoluta proteção, ou, no mínimo, evitariam um ataque em massa contra o país e mesmo contra o continente.
Teme-se pelo que decidirá o novo presidente dos Estados Unidos, depois da provocação deste 11 de setembro trágico. Ademais, porque insuflado por uma forte corrente, manifesta ou latente, da nação inteira, e que é capaz de grandes sacrifícios em vida e em investimentos bélicos para sustentar o ideal de nação líder do mundo e soberana protetora dos seus aliados.
Porém, esse país que se intitula guardião da segurança e das liberdades dos países de ideologias semelhantes e que lhe são simpáticos e solidários, sofreu agora um grande revés e, com toda certeza, sente-se humilhado e mortificado por já não poder alardear aquelas salvaguardas, eis que não pôde garantir a si próprio ao haver-se deixado atacar de maneira que seria prosaica se não fosse tão trágica e dolorosa para tantos, como acaba de acontecer. Esta foi uma dura prova para os Estados Unidos e um resultado que expõe a fragilidade dos modernos sistemas de ataque e defesa de que esse país é detentor.
A grande constatação, a servir de alerta, é que nem a grande e inigualável potência do Norte está a salvo de ataques e, por extensão, país nenhum. Os avanços da tecnologia de armamentos já não constituem hegemonia das grandes nações. O mundo não pode imaginar como poderá proteger-se do terrorismo armado e do que poderá acontecer nos dias seguintes a esta fatídica terça-feira.
A sensatez aponta para os caminhos da diplomacia e das negociações, que pressupõem concessões ante um mundo de tantas desigualdades sociais, que levam os povos mais belicosos a ações de extrema violência e crueldade e com tanto poder de destruição. A humanidade já experimentou todas as formas de guerras para, ironicamente, encontrar a paz e a segurança, mas utilizou-se muito pouco do expediente do diálogo e da solidariedade, que, diante da realidade do mundo de hoje, parece ser o único caminho viável.





