Realidade, não ficção

As cenas de realismo a que o mundo assistiu, ontem, e cujo cenário foi a maior cidade do mais poderoso país do planeta, superaram a ficção e mostraram aos olhos perplexos da humanidade inteira que o futuro já chegou e que as hecatombes virtuais, mostradas nas imagens do cinema, converteram-se em realidade. Filmes como ''The Day After'' (o dia seguinte), e outros do gênero, foram antevisões do que aconteceu ontem.

A imagem cinematográfica da Estátua da Liberdade tombada, como a assinalar a destruição de um símbolo americano, transportou-se ontem para o mundo real e transfigurou-se na demolição, por ações terroristas, de outro símbolo do poderio econômico dos Estados Unidos as famosas torres gêmeas de Manhattan.

Já não se discute o ponto a que chegou a guerra do terrorismo, porque esses movimentos extremistas não têm regras mansas, mas os atentados de ontem regrediram no tempo quanto ao método e foram buscar inspiração nos camicases japoneses dos anos 40, surpreendendo os estrategistas de defesa da mais bem armada nação da Terra. Ficaram dispensadas eventuais barreiras antimísseis porque só mísseis, supunha-se, poderiam destruir as duas gigantes torres de escritórios de Wall Street, o centro nevrálgico da economia mundial.

E por que barreiras antimísseis? Porque elas passaram a ser a obsessão do novo presidente dos EUA, George Bush, para detectar disparos extracontinentais terroristas que poderiam ser feitos contra qualquer alvo do território americano. Teriam sido, agora, inúteis as barreiras traduzidas pelos contrários ao belicismo como nova corrida armamentista, ao custo de bilhões e bilhões de dólares, afora a intranquilidade para a paz do mundo que essa idéia começou a semear.

Pela manhã, em seu primeiro discurso depois dos atentados, o presidente norte-americano declarou, pelas redes mundiais de televisão, que o terrorismo não será tolerado, e assim esparramou o temor de revide e da explosão de uma nova guerra mundial, que certamente envolveria muitos países. Seu segundo pronunciamento, mais brando, foi de que os Estados Unidos irão examinar o que deverá ser feito.

Os atentados de ontem, se atingiram em cheio a nação norte-americana e o seu brio patriótico, atingiram o mundo inteiro e irão se refletir sobre a vida econômica de todos os países. O mundo não será o mesmo depois do dantesco episódio. Foi uma provocação do tipo que os norte-americanos não costumam tolerar. Porque se sabe que os EUA nunca deixaram nada sem resposta, eis que este é um ideal arraigado não apenas na mente dos estrategistas da Casa Branca e do Pentágono, mas da nação como um todo.

O patriotismo americano não mede consequências. Foram os EUA que lançaram as primeiras bombas atômicas, não sobre alvos militares mas sobre cidades e populações civis, destruindo-as quase por inteiro. Primeiro uma cidade e na sequência outra, tal qual os dois aviões camicases que ontem foram lançados, cada um de sua vez, contra as torres do World Trade Center.

E, tão chocante quanto o edifício nova-iorquino diluindo-se sobre si mesmo não se tendo idéia, ainda, do número de mortos foi os cidadãos palestinos, em seu território, fazendo festa pública ante a tragédia que assistiam pela tevê. Naturalmente pelo apoio norte-americano às causas israelenses.

Os Estados Unidos e o mundo, a partir de ontem, estão sob alerta, e o que se sabe de certeza é que os riscos, doravante, são imprevisíveis. Haverá, sem dúvida, grandes desdobramentos no campo econômico, de que não estarão livres o Brasil e toda a América Latina e nenhuma nação do mundo.

É fato que as mudanças políticas empreendidas pelo presidente Bush, e sua declarada postura belicista, devem ter acirrado antagonismos, muito presentes no terrorismo islâmico e alvo direto da contra-ofensiva arquitetada pelo novo ocupante do trono da Casa Branca. Suas projetadas barreiras antimísseis visavam não nações, mas o poderio indiscutível das organizações terroristas. Quanto a essa visão do real inimigo a temer, Bush estava certo.

Não importando qual grupo vá, agora, assumir ou não a autoria dos atentados de ontem, o certo é que esta foi uma ação do muito bem organizado terrorismo internacional, que tem como alvo central os Estados Unidos. O momento deve ser, agora, na mente de cada um, de condolência às famílias dos inumeráveis mortos e feridos da nação americana e dos tantos que sofrem pelo desvario de homens violentos que governam a Terra e detém em suas mãos tão grande poder de destruir.

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