É fora de dúvida que o debate em torno da complexa questão da segurança pública no Brasil deve seguir duas vertentes bem definidas. De um lado, existe o problema da baixa remuneração e da falta de condições adequadas de trabalho dos policiais militares e civis na maioria dos Estados. Isto inclui aparelhamento, armas, veículos e até mesmo a preparação dos policiais para sua missão. Na outra vertente está o problema institucional, sobre o tipo de polícia que a Nação precisa ter para o futuro. A questão exige análise profunda e exame acurado antes de se formular uma mudança de conceito e filosofia. Porém, antes de tudo é preciso resolver o problema que deu início à crise, e este corre o sério risco de cair na gaveta do esquecimento.
Os reajustes de salário dados nos Estados em que as polícias se rebelaram são meramente paliativos. Não garantem nenhuma solução duradoura e se as discussões filosóficas demorarem muito - como é óbvio -, o pavio curto da insatisfação policial vai acabar antes de se chegar a um consenso sobre a segurança ideal.
Se todos sabemos que a situação das polícias é a mais precária imaginável, sabemos igualmente que a população tem todo o direito de exigir segurança. Ela é vital para a cidadania. Há outros problemas também graves no País, como o desemprego e o caos nos serviços de saúde. Mas em nenhum outro setor do serviço público se está tão à mercê da autoridade como no da segurança. A iniciativa privada pode prover educação e saúde - embora a preços que estão fora do alcance da maioria - e, se o Governo ajudar, pode também gerar empregos para a população. Mas a segurança pública é algo que não pode e nem deve ser entregue a particulares.
Quem tem a obrigação de garantir a segurança à população é o poder público. No caso brasileiro, os Estados são os responsáveis e só deixam de sê-lo quando o crime é da competência da Polícia Federal. Há, portanto, necessidade urgente de uma ação muito objetiva dos governos dos Estados visando dar a seus organismos policiais as condições mínimas para que realizem seu trabalho. Isto precede tudo o mais. Naturalmente, precisamos de reformas profundas em todo o organismo policial, talvez até mudar alguma coisa na própria Constituição, mas isto não pode ser feito de afogadilho, nem sem profunda análise, muita reflexão e grande dose de realismo.
É importante que os governantes e legisladores sejam realistas, pois do contrário podemos cair numa discussão sem fim e nunca chegar a lugar algum. O Brasil enfrenta hoje as graves consequências da falta de realismo dos constituintes de 1987-88, capazes de produzir uma Constituição boa na teoria e ruim na prática. Temos uma Carta que garante muitos direitos, mas não leva em conta os deveres e nem quem vai pagar a conta.
A segurança pública exige muita objetividade. O ideal pode ser utópico. É importante que as reformas que se pretende fazer estejam no campo do real e do possível. E que se comece tudo do começo, e não pelo fim. Nos países de origem latina este é um defeito talvez genético, mas que tem cura. É só pensar direito e fazer melhor ainda, para não transformar em drama permanente aquilo que é da vida e não da arte.

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