Ao menos sob um aspecto o vício pode servir à virtude. Em Foz do Iguaçu faixa de fronteira a Receita Federal passou a reciclar o cigarro contrabandeado, destinando esse material a entidades assistenciais, que o vende aos agricultores, pois o fumo serve na recuperação de solos degradados. Com isso, também o meio ambiente é preservado, porque antes os pacotes de cigarro eram incinerados.
O novo sistema de reciclagem foi mostrado à imprensa, autoridades e educadores, na última quarta-feira, para coincidir com o Dia Nacional de Combate ao Fumo, quando a Receita anunciou já haver reciclado 1 milhão de pacotes e que há mais 3,5 milhões por reciclar.
Enquanto isso acontecia, a Organização Mundial da Saúde mostrava a negra estatística das mortes motivadas pelo tabagismo, no mundo: 90% por câncer do pulmão, 85% por bronquite e enfisema, 25% por doenças cerebrovasculares e 25% por infarto do miocardio. E mais: que as grávidas fumantes correm o risco de sofrer aborto espontâneo, de perder o bebê próximo ou depois do parto, de o bebê nascer prematuro ou com baixo peso.
A boa notícia é que, cada vez mais, vão-se alastrando no mundo os movimentos de alerta sobre os malefícios do tabaco, e a legislação dos países vai fechando o cerco e restringindo as áreas de permissão para fumar.
O Brasil já ingressou nessa cruzada, impondo limites para a propaganda do cigarro, e a tendência é que a proibição se torne cada vez mais rigorosa, até o ponto em que fumar se caracterize como um ato afrontoso à população não-fumante, que constitui a maioria.
É do livre-arbítrio do cidadão satisfazer o seu vício de fumar, mesmo com todas as advertências sobre os enormes riscos para a saúde que o fumo provoca, mas é alentador verificar que, pouco a pouco, vai-se impondo o princípio de que onde termina o direito de um começa o de outrem. Porque a fumaça expelida pelo fumante é absorvida pelos circunstantes que não fumam, e lhes causa mal idêntico, ou pior.
A preservação da pureza do ar que todos respiram pressupõe não apenas conter a emissão dos gases poluentes, emitidos pelas fábricas e pelos automóveis, mas também deter a contaminação pela fumaça e pelo mau odor do cigarro.
Os negócios do tabaco mobilizam fortunas, em todo o mundo, iniciando-se nas plantações e estendendo-se ao fabrico, comercialização e propaganda, que alavanca a promoção dos mais caros eventos, sobretudo esportivos.
A receita pública auferida pelos impostos que incidem sobre a indústria e o comércio do tabaco é milionária. Por isso que as campanhas antifumo não são muito simpáticas aos organismos governamentais. Reside aí um outro modelo de vício a servir à virtude, não obstante os números mostrem o grande equívoco dos defensores dessa fonte de receita tributária, porque o custo social para cura das doenças originadas pelo fumo é muito grande, com o agravante de que muitos doentes são levados ao sofrimento e à morte.
O cigarro, incontestavelmente, pertence à família das drogas, pelo mal que causa à saúde de todas as pessoas indistintamente, viciadas ou não, assim como aos bebês ainda no ventre materno.
Por todas essas razões o cigarro afigura-se como uma terrível praga social. Muitos vão abandonando o vício, mas outros na grande maioria jovens são incentivados a ingressar nele, e é para estes que as campanhas de conscientização devem se voltar. Um dos primeiros grandes passos deveria ser a proibição total da propaganda do cigarro, em todas as suas formas.

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