Capital para o pobre


Para progredir no mundo capitalista é preciso acesso ao capital, na forma de crédito, mas para obter crédito é necessário ter um título de propriedade e que esse título seja aceito. Esta tese, que ganhou espaço na imprensa brasileira, este mês, é do economista peruano Hernando de Soto, que veio ao Brasil lançar o seu livro ''O Mistério do Capital'' (há seis meses um dos mais vendidos nos EUA, entre as obras de economia). O autor põe em questão por que o capitalismo dá certo em países desenvolvidos e fracassa no resto do mundo.
A resposta parece óbvia, porque o desenvolvimento se estriba no capitalismo, eis que sem capital não há crescimento econômico e por extensão não há crescimento social. O economista critica que o acesso ao capital é bloqueado aos pobres, porque, mesmo que esses cidadãos tenham como única propriedade os barracos onde moram, eles não possuem o respectivo título e isso dificulta a obtenção de crédito. Diz que o capitalismo é essencialmente a propriedade e que, com dinheiro para implantação e giro dos seus negócios, essa comunidade pobre sairia da informalidade para a economia formal e para a ascensão social.
Diante da pergunta de onde viria a liquidez necessária para a oferta de crédito, em países (como o Brasil) subjugados por escassez de poupança interna, juros altos e prazos curtos, ele diz que se deve proceder da forma como os Bancos Centrais dos países desenvolvidos emitem moeda: medindo o volume e a velocidade das transações de títulos de propriedade e assim definindo a liquidez necessária para sustentar esse movimento.
A tese de Hernando de Soto não é apenas teórica. Ele mostra estudos de campo, feitos a convite de governos e associações empresariais de países como Peru, Egito, Indonésia, México, Filipinas, Haiti e Rússia. A equipe que o acompanha integra o Instituto de Liberdade e Democracia, uma ONG com sede em Lima, eleita pela revista ''The Economist'' como o segundo mais importante centro de estudos para formulação de políticas do mundo.
Ele define que ''os pobres não são tão pobres assim'', demonstrando que a poupança dessas camadas sociais é feita na forma de casa, material de construção e até veículo, e que isso só não se traduz em capital porque o sistema financeiro desses países não os reconhece como tal. Afirma que com um título de propriedade um norte-americano pode fazer cem operações financeiras, porque nos Estados Unidos esse título é reconhecido.
Daí resulta o êxito do capitalismo, eis que ele consiste essencialmente na propriedade. O que vale para o zona urbana vale também para o campo, ele diz. Um de seus interessantes enunciados é que o desenvolvimento não é produto do capitalismo, mas da falta dele. Afirma que, no Brasil, aconteceria um impacto desenvolvimentista se fosse liberado o capital aprisionado na poupança imóvel da classe pobre. Naturalmente porque esse dinheiro parado passaria a circular.

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