EDITORIAL
Toda a luta do povo em defesa de uma causa é sempre um aprendizado, embora o preço a pagar, por isso, seja às vezes alto demais, como ocorreu agora com o caso da Copel. A principal lição a tirar é que está nas mãos da sociedade melhorar a qualidade dos governantes e dos seus representantes nas Casas legislativas. E não há caminho mais curto senão o da boa escolha que se fizer dos homens destinados às funções governamentais.
Houvesse, na Assembléia Legislativa do Paraná, uma maioria de deputados leais ao povo, portanto honrados, não teria acontecido esse espetáculo de descaso com a opinião pública mostrado por metade do quadro parlamentar. O episódio caracteriza verdadeiro escândalo, porque carrega a mácula do voto de barganha. Como apenas um voto reverteria toda a situação, já que o desempate, matematicamente, jamais ocorreria, a menos que o presidente da Casa votasse duas vezes uma, o seu voto nominal, outra o seu voto de Minerva nunca o valor de um deputado esteve tão alto.
Ademais, se a lei eleitoral contemplasse a decisão popular e proibisse que alguém eleito para função legislativa pudesse abandoná-la para ocupar um cargo executivo, podendo com a mesma facilidade retornar a ela, um secretário do governo não teria se reconvertido a deputado por algumas horas, apenas para votar, como aconteceu no momento da célebre e decisiva votação na Assembléia.
A população não compreende por que uma Casa legislativa, cuja função é representar o povo, possa ter deputados de oposição e de situação, pressupondo-se dessa forma que uns tenham que ser necessariamente contra o governo e outros a favor. As duas posições são contrárias à representatividade popular, porque também o chefe do Executivo é eleito pela maioria dos cidadãos. O que deveria haver era uma ordem natural de oposição aos maus projetos e de concordância com as boas causas.
Razões outras, que certamente nunca serão conhecidas, com toda certeza pesaram no voto dos 27 deputados favoráveis à venda da Copel, mas mesmo que fôra uma decisão de pura coerência partidária, por parte de quem pertence ao partido do governo estadual e seus coligados, tal posição inarredável passa a ser uma insensatez se contraria o interesse do Estado-cidadão, aí entendido o povo.
De tudo isso resulta que o princípio da representatividade popular, na Assembléia Legislativa que hoje temos, é uma farsa, porque nunca como no caso da Copel a sociedade paranaense mostrou tão claramente a sua posição contra a venda da empresa sem se conhecer, do seio das massas, a manifestação de vozes contrárias. Mesmo assim, pesaram mais fortes as ''forças ocultas'', ou outras nem tanto, eis que alguns deputados manifestaram publicamente porque votaram contra o povo e a favor do governo.
De outros mais, sabe-se que lhes falta espírito público e consciência política que sustentem a honra do cargo. Os eleitores os conhecem bem, embora continuem elegendo-os, porque seu voto também é vulnerável e atende a conveniências pessoais de momento, fruto da miséria social em que vegeta grosso contingente do eleitorado. De um lado a miséria social e de outro a miséria política.
No caso da Assembléia Legislativa do Paraná, houve uma considerável evolução, a partir do momento em que a regência da Casa deixou de ficar a cargo de um único homem, aquele que imperou por longos quarenta anos. Estivesse ainda Aníbal Khury presente na vitalícia presidência (legal ou implícita) da Assembléia e a votação da Copel não teria sequer chegado ao quase empate. Com a morte desse líder inconteste, ao menos um numeroso bloco de parlamentares conscientizou-se de que pode ser independente e exercer livremente o mandato. Foi um avanço, mas não o suficiente para uma renovação total de mentalidades no corpo legislativo. Mais um pouco e a Copel teria se livrado.





