Pela primeira vez na história do Brasil uma cidade promove plebiscito para decidir se um patrimônio público deve ser vendido. Isto ocorre hoje, em Londrina, por vontade da Câmara Municipal, atendendo ao interesse do prefeito Nedson Micheleti de vender um segmento do Serviço de Comunicações Telefônicas, a empresa Sercomtel Celular. Foi a fórmula encontrada para que um negócio de tamanha envergadura e pela sua natureza estratégica e econômica fosse decidido não pela vontade da administração pública, mas pela população do município.
A prefeitura apresenta suas razões para não querer mais administrar esse serviço (o da telefonia celular), mas não quer afrontar os munícipes que são contrários à venda. Assim, não pretendendo criar indisposições, o Legislativo convidou os cidadãos a que dissessem o que fazer, através do processo democrático do plebiscito. (Plebiscito, uma prática não muito adotada e um termo pouco conhecido, quer dizer resolução submetida ao julgamento do povo, em votação geral, por meio de cédula ou sinal de ''sim'' ou ''não''. Na Roma antiga destinava-se a ouvir a opinião apenas dos plebeus que não faziam parte da nobreza daí o nome plebiscito).
O ato cívico de Londrina um exemplo nacional de respeito à cidadania realiza-se um dia antes de a Assembléia Legislativa do Paraná votar o propósito do governo de, também, vender um patrimônio público, a Companhia Paranaense de Energia (Copel). A diferença é que no caso da Sercomtel Celular há uma parcela da população contrária e outra favorável à venda, conforme pesquisa de opinião. Já a proposta de venda da Copel encontrou resistência da maioria esmagadora da população paranaense (77%, pela amostragem de pesquisa, feita pelo próprio governo), não se conhecendo nenhum movimento popular que a defenda.
Este fato é surpreendente, talvez inédito no País, e deixou isolados a comunidade palaciana e os deputados governistas. Outra constatação foi que, na manifestação popular que ocorreu dentro e defronte do edifício da Assembléia, durante as duas sessões em que deveria acontecer a votação da delicada questão, não havia correntes contrárias entre si, porém uma voz uníssona em defesa da manutenção da Copel como empresa estatal. São os deputados, indiscutivelmente, os representantes do povo na Casa legislativa, mas no presente episódio os parlamentares da ala governista não estão seguindo o desejo popular, preferindo contrariar, acintosamente, a tudo e a todos.
Em Londrina, a participação do povo está sendo dignificada, porém isto não ocorre no caso da Copel, porque metade dos deputados parece não haver percebido que, com essa atitude insólita, afronta quase a população inteira e quebra o princípio da representatividade popular, que é o fundamento e a razão de ser do Poder Legislativo.

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