Editorial
Provavelmente não há no mundo quem desconheça os problemas do meio ambiente. Existe uma consciência muito clara sobre a situação, o conhecimento sobre os perigos que rondam até a sobrevivência da humanidade, a percepção sobre a necessidade de mudanças radicais no comportamento, principalmente em relação ao uso (e abuso) da natureza. Mas nada disto parece atingir de modo concreto os governantes, notadamente nos países que mais poluem o planeta. A impressão que se tem é a de que todos sabem que estão colaborando para acabar com o planeta, mas insistem em esperar que os outros façam alguma coisa, negando-se a assumir o seu papel e aceitar os sacrifícios que são necessários para reverter esta situação.
Aconteceu em Bonn, na semana passada, nova reunião para análise da situação climática no mundo, numa sequência da Cúpula da Terra, realizada no final de junho, em Nova York. E uma vez mais, percebeu-se a mesma falta de vontade política que fez fracassar a conferência de Nova York. Todos os países participantes do encontro de Bonn consideraram vital um acordo para limitar a contaminação causada pelo efeito estufa, mas a negociação continua travada, apesar de faltar apenas uma rodada de negociações antes da reunião decisiva, programada para dezembro, em Kioto (Japão).
No encerramento do encontro de Bonn, a ONU reconheceu que os participantes das reuniões silenciaram sobre as questões essenciais. Os delegados abordaram a questão central da redução da emissão de gás que causam o efeito estufa, informou à imprensa o secretário executivo da Convenção, Michael Zammit Cutajar, sem que houvesse qualquer avanço no sentido, pelo menos, da proposta de medidas concretas para enfrentar o problema da forma adequada.
A reunião de Bonn terminou com a constatação de que o essencial não foi tratado. Como ocorreu em Nova York, os Estados Unidos mantiveram até o fim sua oposição a qualquer compromisso sobre a limitação de emissões de dióxido de carbono (CO2), oposição que já foi manifestada na reunião de cúpula do G-8 realizada em Denver. Se os Estados Unidos mantiverem sua negativa até o final, será difícil aprovar o protocolo de Kioto, porque os japoneses também estão demorando a se decidir. Como se sabe, os norte-americanos são os maiores responsáveis pela poluição que acarreta o efeito estufa. Sem uma definição por parte dos Estados Unidos, qualquer iniciativa a respeito não tem muita possibilidade de sucesso.
Várias Organizações Não-Governamentais (ONGs) que participam dos debates, estimaram que as negociações avançam a passo de tartaruga e se mostraram muito críticas com os países que as freiam, especialmente os Estados Unidos e o Japão. Muitos países vieram aqui mais para evitar a ação que para discutir as reduções de emissões de gases de efeito estufa, garantiu Delia Villagrasa, diretora da Rede Ação Clima (RAC), que reúne 300 ONGs do mundo inteiro.
Trata-se, inegavelmente, de uma situação que reclama mobilização global. Os Estados Unidos são, hoje, os maiores responsáveis pela poluição ambiental, notadamente pelo chamado efeito estufa. Esperar que adotem medidas capazes de mudar o quadro por livre e espontânea vontade chega a ser utópico. Incumbe então aos povos de todos os países do mundo a mobilização. Assim como a atitude do Iraque, invadindo um país soberano, marginalizou aquele país no concerto mundial, também a atitude irresponsável de uma nação que está na liderança em questões de destruição ambiental deveria merecer posicionamento similar do restante do planeta.





