EDITORIAL
Um dia de esperança
Quando está em jogo a preservação ou a dilapidação de um patrimônio público, deve-se entender por vitória, obviamente, a primeira hipótese, mas no Paraná esse princípio se inverte na conceituação do governo estadual. Porque, para a comunidade palaciana e para os deputados governistas, a vitória será a ''liquidação'' da Companhia Paranaense de Energia (Copel), e a derrota a prevalência da vontade e da sabedoria populares.
Quatro centenas de entidades civis, representativas da maioria dos segmentos profissionais do Paraná, e 77% da população ouvida por pesquisa já se manifestaram contra a venda da Copel, mas essa opinião parece não contar para aqueles que não têm outros olhos senão para os bilhões que essa transação poderá proporcionar. E outra não é a razão senão fazer dinheiro, eis que a Copel é uma empresa sólida, bem administrada e lucrativa, e que já pagou o próprio investimento.
Este 14 de agosto é dia decisivo na Assembléia Legislativa, porque os deputados põem em votação o projeto de iniciativa popular que propõe a manutenção da empresa como estatal. Caso compareçam todos os 54 membros da Casa, serão necessários ao menos 28 votos (metade mais 1) para que se consagre a vontade da população paranaense. Se tal não ocorrer, o povo terá sido derrotado pela maioria dos seus próprios representantes no Poder Legislativo.
A alegação do governo é que precisa de dinheiro para estancar o déficit previdenciário do Estado, anunciado como de R$ 100 milhões mensais. A lei de privatização da Copel (aprovada há três anos) estabelece que 70% do que for arrecadado com a possível venda da empresa destina-se à Paraná Previdência, mas é só fazer contas e concluir que em poucos anos o dinheiro terá acabado, o déficit se reimplantará e os paranaenses já não terão o patrimônio representado pela Copel.
Os que agora agem não pela vontade popular mas pela influência dos acenos do Palácio Iguaçu, estão pensando apenas no momento presente, por isso obcecados pela venda, mas não imaginam que o Paraná ficará mais pobre sem o controle de sua companhia de eletricidade. Porque o governo já não terá poder de ação sobre as diretrizes que os novos proprietários provavelmente estrangeiros irão traçar para esta empresa, de tão grande importância estratégica. Quem tem o domínio da energia elétrica exerce controle sobre a vida dos cidadãos, e esse poder corre agora o risco de ser entregue a mãos estranhas.
As ''forças ocultas'' devem ser muito poderosas, porque a venda da Copel serve apenas à vontade de um único homem, o governador Jaime Lerner, já em véspera de encerrar o mandato mas cujo poder de fogo é surpreendente, a ponto de entorpecer a consciência de um expressivo grupo de parlamentares. A Assembléia Legislativa do Paraná decide, hoje, se quer consagrar-se como instituição soberana e independente ou transformar-se num mero apêndice do Palácio do Governo. Apesar dos temores do povo, este 14 de agosto é, também, um dia de esperança.





