EDITORIAL
O conceito de tranquilidade
''A posição é de tranquilidade'', declarou ontem pela imprensa o secretário-chefe da Casa Civil do Governo, Alceni Guerra, baseado em informação que lhe passava o deputado que fala pelo Palácio Iguaçu na Assembléia Legislativa, Durval Amaral.
A ''tranquilidade'' anunciada referia-se à situação do placar pró-venda da Copel no ambiente legislativo, mesmo depois que a deputada Serafina Carrilho resolveu mudar de posição e decidir pela manutenção da estatal. Seriam 25, agora, os deputados que perfilam a favor da vontade popular, e 29 os que estão contra.
O que não se compreende é o que o governo conceitua como tranquilidade se o povo não está tranquilo com a idéia arbitrária de desfazer-se da companhia de energia. Por tranquilidade deve-se entender a tranquilidade pública, mas não é o que ocorre ante a obsessiva intenção do governador Jaime Lerner de ''liquidar'' um patrimônio tão valioso como a Copel.
Não deve haver tranquilidade e paz social se um ato é imposto contra o povo e se há um poder de domínio sobre parlamentares que se deveria supor independentes. A imagem que se tem é de um contingente formado pelo rei e seus vassalos pequeno mas indiscutivelmente poderoso acantonado sob a proteção de grossas muralhas, mas cercado pela multidão contrariada. Não é outra a situação senão esta a que agora se assiste, no Paraná.
A declaração da deputada Serafina Carrilho, que é da base aliada do governo mas mudou de idéia no caso da Copel, é algo que demonstra o poder de fogo que emana do ''bunker'' representado pelo Palácio Iguaçu: ''Duvido que façam algo contra mim, porque os projetos bons do governo eu sempre apóio.'' Está implícito que vigora um poder que pode punir e que, por suposto, tem a contrapartida de beneficiar.
Naturalmente que, entre os 29 deputados favoráveis à venda da Copel (dos 54 que compõem a Casa) há os que têm convicção própria quanto a essa transação o que não deixa de ser uma imprudência, se contraria a vontade da maioria esmagadora da população e mais 400 entidades civis do Paraná mas seria ingenuidade acreditar que não existam muitos outros que agem por conveniência político-partidária e mesmo pessoal, o que é inerente às relações do poder.
''Depois dessa decisão fiquei em paz'', resume a deputada, após ceder às vozes de suas bases eleitorais, como afirmou. Esta, sim, deve ser uma confortável posição de tranquilidade, tão inadaptada na conceituação do secretário da Casa Civil.





