Editorial
Escudado na experiência e na fama conquistada durante as duas décadas em que reinou nos campos de futebol de todo o mundo, o ministro Edson Arantes do Nascimento apresentou ao presidente da República, para ser encaminhado ao Congresso, um projeto de lei com o objetivo de modernizar e moralizar as estruturas do esporte mais apreciado pelos brasileiros. A proposta permite aos clubes se constituírem como empresas lucrativas, liberta os jogadores da absurda possessão dos cartolas, reorganiza a Confederação Brasileira de Futebol e torna os árbitros juridicamente independentes, podendo também constituírem-se como empresa prestadora do serviço de arbitragem nos campos de futebol. São, portanto, mudanças profundas que completam e vão além da lei formulada sob os auspícios de outro grande jogador e ex-ministro, Arthur Antunes Coimbra, o Zico.
Já é assim, aliás, na Europa, na Ásia, nos Estados Unidos etc. Só no Brasil o arcaico e ultrapassado sistema de servidão e, até, escravidão, se mantém incólume, com todo seu séquito de privilégios e corrupção fartamente noticiados e conhecidos do imenso público amante do futebol em nosso país.
Inesperadamente, o projeto do ministro Pelé provoca uma intempestiva, abusiva, grosseira e absurda contestação por parte do presidente da Fifa, o brasileiro João Havelange, por coincidência genro do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, cuja entidade perderia substancial fatia de poder, influência e dominação - e muito dinheiro também - com o projeto.
Aqui, como em toda parte, o futebol atrai tantos interesses que se torna difícil separar o joio do trigo. Muitos clubes em todo o mundo eram fachadas para lavagem de dinheiro do tráfico de drogas, da máfia e de políticos corruptos, até que os novos tempos vieram e hoje essas práticas ficaram muito difíceis. Os clubes têm que declarar ao Fisco o que arrecadam, passaram a pagar impostos, tiveram de recolher contribuições previdenciárias e sociais. Assim fica muito complicado fraudar os governos, lavar dinheiro sujo etc.
O esforço de moralização é, sem exagero, mundial. Diante disto, pelo posto que ocupa numa entidade que deveria estar à frente do processo de mudanças, o sr. Havelange parece ter perdido o senso ao investir como um tirano sobre outro país - ainda que seja o de sua nacionalidade -, pretendendo impor-se até aos poderes constituídos da República e fazendo ameaças descabidas e despudoradas caso a lei seja aprovada.
As propostas do ministro dos Esportes tentam reduzir a corrupção - impossível de vencer totalmente, como reconhece o próprio Pelé - e, por isso, devem ter o apoio de todos os homens de bem. É lamentável e vergonhoso para nós que o sr. Havelange nos exponha dessa maneira ao juízo de outros países que já conseguiram debelar o grosso da corrupção no esporte. Ele se iguala, com isso, a alguns celerados que ainda fazem o que querem nos clubes e escarnecem daqueles que os sustentam, isto é, os associados e torcedores - justamente a grande maioria do povo brasileiro.
Qual o problema de se fazer no Brasil o que já se faz na Europa? Qual o passo errado de Pelé, a que se referiu o sr. Havelange em entrevistas nos últimos dias? Só se for o passo de combate ao que não presta e teima em continuar! O submundo que tenta controlar o futebol, e não só aqui, tem armas poderosas. Até o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, chegou a dizer que não quer confronto com o sr. Havelange. O presidente está errado: este é o bom combate e nele não se deve temer confronto algum.
O mal, aliás, não está nos clubes e nem na maioria das pessoas que vivem do e para o futebol. O mal está nas estruturas que alguns espertalhões montaram no passado e ficaram aí até hoje. É isto que precisa ser demolido para se poder construir um novo tempo no esporte nacional. Ir contra a reconstrução é pactuar com a corrupção, o que o presidente da Fifa jamais poderia fazer, em hipótese alguma. Seu ato é ofensivo não só ao ministro brasileiro, mas a todo o País e a suas instituições.





