Editorial
O senador Eduardo Suplicy não perdeu a oportunidade de lembrar ao futuro presidente do Banco Central, Gustavo Franco, na sabatina a que foi submetido pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, que tempos atrás ele havia elogiado, em entrevista, a Tailândia e a Malásia como países que tinham altos déficits externos e não enfrentavam crises. O castigo veio a galope. De alguns dias para cá os dois países enfrentam uma grave crise cambial. Mas o candidato não perdeu o controle e insistiu que todas as economias emergentes têm déficits. Admitiu que há os que abusam disto, mas prometeu que o Brasil não abusará.
Ele deixou claro o que se sabia: o Governo não vai mudar a política cambial, não fará uma maxidesvalorização da moeda, não haverá choques. A mesma posição foi explicitada pelo ministro Pedro Malan, em entrevista concedida à imprensa estrangeira, garantindo que as dificuldades que alguns países da Ásia vêm enfrentando não farão o Brasil mudar de rumo nem provocarão efeitos colaterais aqui.
O candidato acabou convencendo os membros da CAE. Na próxima semana, seu nome vai a votação no plenário do Senado e o resultado deve ser o mesmo. O Governo tem maioria suficiente na Casa e até agora os vaticínios alarmistas de certos críticos não se confirmaram. Há três anos o País passa incólume por eles e isto conta na hora da decisão. Além disso, a inflação está no chão e isto é tão espetacular que põe na sombra o déficit público crescente, o desemprego e os juros estratosféricos.
A Nação deve cobrar do futuro presidente do BC a promessa de que este país não abusará. Mais do que dívida, promessa de guardião da moeda é compromisso sagrado com a Nação. Ele conhece os problemas do setor público, sabe perfeitamente das dificuldades que o setor privado enfrenta e tem visão concreta a respeito do que pode ser feito. E já disse que vai se dedicar a resolver uma das maiores encrencas da economia brasileira, o tal custo Brasil, que torna qualquer coisa made in Brasil cara demais para os compradores externos e para os próprios brasileiros.
O Brasil está enfrentando um terreno praticamente desconhecido, ao desenvolver um esforço de desenvolvimento sem inflação. Até hoje, sempre tivemos desenvolvimento com inflação, pois os governos precisavam gastar o que não tinham e nem o setor privado possuía. Hoje, o desafio é o desenvolvimento sem inflação, pois nossos governos simplesmente não têm de onde tirar os recursos necessários aos grandes projetos.
Devemos criar poupança interna, atrair poupança externa, impulsionar a produção, gerar empregos e construir um mercado auto-sustentado. A economia mundial passa por problemas de ajustamento a uma nova realidade, mas há muito capital - que se mede em trilhões de dólares - procurando economias emergentes e promissoras. Se o custo Brasil vier abaixo como veio a inflação, então o sr. Gustavo Franco e toda a equipe econômica deste governo e do próximo terão cumprido o que deles se esperava.





