Combate ao desperdício

Muito se tem comentado sobre a possibilidade enorme que o Brasil tem de superar rapidamente seus problemas econômicos e sociais com ação simples: voltar-se para a agricultura. Com efeito, o País poderia, até com facilidade, dobrar sua produção agrícola, sem a necessidade sequer de ampliar muito a área atualmente ocupada. Com isto, não apenas haveria mais alimentos para enorme multidão de pessoas atualmente marginalizadas, mas também seria possível aumentar a receita das exportações, atendendo às necessidades de um mundo também faminto.
Entretanto, nos últimos anos a produção brasileira permanece nos mesmos níveis, sem crescer sequer em percentual capaz de atender ao aumento da população. Os numerosos programas para aumentar a produtividade não atingiram sua plenitude e a falta, ainda, de política mais corajosa de estímulo à produção completa o quadro. O Brasil continua a ser um país em que milhões passam fome sobre uma das terras mais férteis do mundo. E, para completar, persiste também outra realidade, igualmente denunciada há tempos e que não tem merecido maior atenção e cuidado: o desperdício.
Segundo levantamento da secretaria executiva do Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome, divulgado em Simpósio realizado em Curitiba, o país desperdiça, devido a falhas no processo de produção, armazenagem e transporte, 15% dos alimentos que produz. São 11 milhões de toneladas de produtos alimentícios literalmente postos fora, todos os anos, representando prejuízo monetário de US$ 9 bilhões. E mais um detalhe: nas frutas e hortaliças, o desperdício ainda é maior, atingindo entre 30% e 40%.
O desperdício não é um problema apenas da produção. Os brasileiros não estão entre os povos mais cuidadosos no que diz respeito à economia. Por aqui, ao lado de 32 milhões de famintos, conforme levantamento daquele mesmo Comitê, há mais de 100 milhões de pessoas que desperdiçam quase tudo, desde a comida à roupa, passando por todos os aspectos da vida. Boa parte da população não sabe sequer como racionalizar o consumo de energia elétrica, de água ou de combustíveis. O desperdício é praxe. O resultado disto tudo é terrível.
Esta situação, porém, apresenta por si própria a solução: pois basta conter o desperdício para que haja melhoria em todos os setores. A agricultura, por exemplo. Contendo-se as perdas, haveria ganho de 15% sem a necessidade de qualquer novo investimento. Os cuidados necessários são muito simples, exigindo apenas a eventual mudança na filosofia de trabalho, desde o momento da plantação até o transporte. Em todos os setores há perdas e de modo geral pode-se evitá-las mediante um pouco mais de cuidado por parte dos que estão envolvidos no processo.
Segundo dados apresentados naquele trabalho, o Brasil é um líderes em desperdício no mundo. Indica-se também que muitos países não produzem o que nós perdemos, por incúria, descuido, falta de um mínimo de atenção. Trata-se, vale lembrar, de herança verdadeiramente histórica. O Brasil, por causa de sua imensidão territorial e da aparente enormidade de seus recursos, acaba por perder de vista a visão sobre a importância de poupar, de economizar, de racionalizar. Mas o preço que se paga por isto é cada vez mais elevado. Vale a pena realizar trabalho amplo de conscientização sobre esta realidade. Evitar o desperdício pode ser o início de um caminho no sentido de resolver ponderável parcela dos problemas que o país enfrenta.

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