EDITORIAL
Parece que o governo federal estava mais preocupado em encontrar um culpado para a crise de energia elétrica do que resolver o próprio problema. Agora, segundo relatório que lhe chega às mãos, certamente de sua própria encomenda, o culpado foi encontrado. É o ex-ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho. Imediatamente o presidente Fernando Henrique determinou que esse fato se tornasse público.
Soa muito ao estilo deste governo atribuir culpas e qualificativos a outrem. A um passe de mágica, o presidente da República, a equipe econômica e o Operador Nacional do Sistema Elétrico são inocentados. E por quem? Por um órgão vinculado à própria esfera governamental: a Comissão de Análise do Sistema Hidrotérmico de Energia Elétrica.
Não é tão simples assim. O presidente tinha, há muito tempo, conhecimento da iminente escassez de energia. Especialistas vinham falando disso e a imprensa também. Ocorre que FHC nunca se ligou em advertências acerca de seu governo, e como nunca percorreu o Brasil, preferindo viajar para o exterior, pouco sabe do que se passa em seu próprio país.
Como pode o governo alegar ignorância se o próprio relatório ora apresentado diz que o atraso na definição do plano de racionamento e disputas entre órgãos do governo foram os principais responsáveis pela crise de energia? O presidente tinha conhecimento dessas disputas. E se não tinha, tanto pior para a sua imagem de chefe supremo da República.
E isentar de responsabilidade a equipe econômica se afigura ainda mais hilariante, porque é justamente aí onde são tomadas todas as decisões, incluindo as do nada fazer pela causa do desenvolvimento. Tem sido assim na esfera do superministério comandado por Pedro Malan.
O ex-ministro Tourinho defende-se das acusações, afirmando que não houve investimento no setor energético porque esta era uma política de governo. E fez críticas justamente à equipe econômica, por ter impedido segundo disse o equacionamento mais rápido da questão do risco cambial do gás, e assim, por causa dos investimentos abaixo do esperado no setor energético, as águas dos reservatórios vinham sendo consumidas.
Os argumentos da esfera oficial, baseados no relatório agora produzido, é que não teria sido devidamente sinalizada ao presidente da República a possibilidade de um racionamento profundo de energia. O que ocorre é que o chefe do governo não deu importância, como é de seu costume, às advertências que vinham sendo feitas sobre a iminência da escassez de energia.
Ademais, a vigilância sobre tudo o que ocorre dentro de seus domínios é atribuição do chefe do governo, de quem não se admite desinformação, titubeio e negligência. A verdade é que o presidente da República nunca deu ouvidos aos avisos que lhe chegavam de fora, porque sempre se julgou soberano e acima de qualquer questionamento.
As consequências agora vão surgindo, como o racionamento de energia e os empresários prevendo demissões, já para este ano, por conta da escassez de força motriz em suas fábricas. Problema que deve durar ainda uns dois anos, ou mais, mesmo com todas as providências que venham a ser tomadas (e se não forem, então será o caos).
O relatório, que agora encontra um culpado, por si só não livra o presidente FHC de sua responsabilidade. Porque, se é um delito de lesa-pátria a negligência de não cuidar de um problema sério como o da insuficiente produção de energia elétrica, haver ignorado as advertências a respeito é um delito idêntico.





