Editorial
O presidente Fernando Henrique Cardoso está com toda razão quando cita, até com ufanismo, os números positivos da economia, o incontestável sucesso do plano de estabilização, os números levantados pelo IBGE no censo divulgado esta semana e que indicam o aumento da qualidade de vida e da escolaridade da população. Realmente, a maioria dos indicadores econômicos mostra que estamos vivendo um período muito diferente e mais promissor do que antes de 1994, quando o Plano Real entrou em vigor. Entretanto, isto não quer dizer que não tenhamos problemas, mesmo na área econômica e, inegavelmente, na área social, onde, mais do que simples problemas, temos um estado de verdadeira calamidade herdado de cinco séculos de sudesenvolvimento.
Os números sobre a inflação são mais que satisfatórios. Há mais de meio século não se vê coisa assim. Do mesmo modo, é perceptível uma melhoria na qualidade de vida da população. Uma parcela dos que viviam na mais extrema miséria já conseguiu sair desta situação. Mas ainda há dezenas de milhões de carentes, aos quais se deve acudir com programas sociais, não só de assistência mas também de empregos, o que exige treinamento e certa instrução que é preciso oferecer.
Reconhecer esta realidade, ao invés de responder aos críticos num tom de que tudo vai muito bem, é o primeiro passo para encarar os duros problemas que temos e lançar as bases para as soluções. Não se pode chamar de cegos os que pedem medidas mais profundas e eficientes para erradicar a miséria e o abandono. Reconhecer a existência dos problemas não é sinal de incompetência, mas de que o principal responsável pelo Governo está ciente e consciente de tudo o que ocorre no País.
Estão ai os graves problemas do desemprego, da saúde, da segurança, entre tantos, a desafiar governos e a infelicitar grande parte da população. Não se pode desconhecer que o gráfico do desemprego continua em alta. Nem fechar os olhos e ouvidos para as críticas, já que estamos em uma democracia e ainda não chegamos ao paraíso. Os números positivos indicam, de fato, que o País está no caminho certo, que a inflação perde força, que uma parcela cada vez maior da população começa a ter esperança no futuro. Mas isto é, ou deveria ser, apenas o princípio de um processo que ainda demanda muito esforço para chegar ao ponto desejado.
Com todo o potencial que o Brasil tem, deve-se comemorar não a redução da miséria mas um programa para erradicá-la em 20 anos; não a inflação de menos de 8% este ano, mas um plano para, ao mesmo tempo, desenvolver áreas estratégicas da economia para aumentar a produção exportável e o emprego; não o aumento da escolaridade entre 15 e 17 anos, mas um programa para eliminar o analfabetismo e promover o ensino profissinalizante. Enfim, comemorar ações de longo prazo que mudariam definitivamente o perfil do País.
Os brasileiros têm o direito de exigir mais da vida, inclusive do Governo: segurança, saúde, trabalho, educação. E o presidente, como principal responsável pela administração, não pode se contentar com menos. Os números positivos são animadores, mas ainda há muito a fazer em benefício de todos os brasileiros.





