Nas campanhas eleitorais o discurso é um, mas quando os eleitos assumem, a realidade muda o tom da conversa. Prefeitos do Paraná, que prometeram mundos e fundos enquanto candidatos, vêem agora que o exercício do poder não é aquilo que sonhavam. Alguns estão simplesmente fechando as prefeituras por certos períodos, outros reduzindo horários de atendimento, outros ainda ameaçando os munícipes de não atendê-los se eles não contribuírem com sua parte pagando o IPTU.
Os prefeitos que assumiram em janeiro encontraram os cofres vazios e, pior, muitas contas a pagar. Com a presença da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), instituída há exatamente um ano, uma nova ordem se instalou. Quem não a cumprir, sabe que sofrerá punições. Muitos não estão conseguindo segui-la à risca, mas essa lei veio para ficar e não está para brincadeira.
Prefeitos novos imaginavam que iriam fazer milagres, e os reeleitos não pensavam como seria ter de mudar costumes e adaptar-se à disciplina. O primeiro aniversário da LRF já comemora bons resultados, não só no Paraná como na maioria dos municípios brasileiros. E bons resultados podem significar, também, situações de contenção e medidas como as do fechamento temporário das prefeituras e alteração dos horários de atendimento. Essas providências extremas nada mais são do que conscientização, que vem pela sensatez ou por imposição da amarga realidade das finanças.
As prefeituras, com raríssimas exceções, sempre foram mal gerenciadas, com inchaço de funcionários, mordomias, desperdício, verbas mal aplicadas, muita corrupção e a prática de ir empurrando as dívidas para a frente, até desaguarem na administração seguinte. Isto não poderá mais acontecer, e tal se deve à Lei de Responsabilidade Fiscal, que disciplina não só a vida dos prefeitos mas também dos governadores e do próprio presidente da República e dos demais Poderes. O disciplinamento imposto pela nova lei, com as consequências daí decorrentes, é um preço que os cidadãos têm de pagar, porque faz parte do processo de saneamento da administração pública.
Contudo, que fiquem atentas as comunidades e as sociedades civis de defesa da moralidade pública, para que os governantes não se valham da LRF para chantagem, a esconder incompetência para administrar com crise. Este é um momento que exige capacidade gerencial, porque se há dinheiro em abundância é fácil tocar negócios e empresas públicas, como os governos. Administrar bem na escassez, isto é para os competentes.
Também se sabe - e a tradição brasileira o atesta - que muitos prefeitos queixam-se das dificuldades porque estão enxergando poucas chances de empregar parentes e apaniguados à custa do dinheiro público e de extrair outros dividendos escusos, em proveito pessoal. O temor de parte dos cidadãos é que, para esses fins, eles acabem encontrando recursos. Porque se a LRF é rígida, por si só não fará governantes honestos.
Porém, fechamentos temporários de prefeituras e redução de horários de atendimento serão apenas medidas paliativas se não vierem acompanhadas do enxugamento da máquina administrativa, através do corte de pessoal, economia de material de expediente, menos desperdício e criteriosa aplicação das verbas. Para não falar da necessidade de expurgar a praga da corrupção. Administração se faz não só com dinheiro mas sobretudo com vontade política.
Os prefeitos, especialmente - porque mais próximos do povo - precisam mobilizar a sociedade e motivá-la, para que seja não apenas beneficiária dos serviços públicos mas também um agente de cooperação. Os contribuintes, já naturalmente escassos de dinheiro - uns por falta de emprego, outros pelo minguado ganho - não crêem nos governantes, e então deixam de pagar o IPTU porque esperam por eventual anistia, ou porque não querem mesmo entregar seu dinheiro ao administrador público. Há que restabelecer essa confiança perdida, e este é um caminho longo. Administradores honestos criarão contribuintes mais dispostos a pagar.
De qualquer forma, é possível administrar na escassez e manter os serviços básicos com os recursos que existem. Construção de obras, que venham a perpetuar a imagem do governante, deve ser esquecida por ora e a atenção voltar-se mais para as pequenas realizações, sobretudo as de maior alcance social. Governar com honestidade e critério já será o suficiente para consagrar uma administração.

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