Quando a corrupção atinge também a esfera da Justiça, mais a sociedade se desencanta e vê esvair-se o pouco que lhe resta de confiança nas instituições. Dos Três Poderes, o último que os cidadãos imaginavam ver envolto em irregularidades é o que congrega os magistrados. Porque eles pressupõem a Justiça como uma instituição acima de qualquer suspeita, que dá aos cidadãos a garantia do cumprimento das leis e a segurança de que, mesmo quando abusos ocorrem no círculo do próprio Poder Público, essa instituição mais alta se impõe e faz prevalecer o princípio da ordem da autoridade.
Se também a Justiça se corrompe, a sociedade imagina que não deva respeitá-la, e assim a falência da moral pública vai encontrando campo fértil para implantar-se. Se a desobediência civil não ocorre na prática, ao menos na mente dos cidadãos os agentes públicos têm pouca credibilidade. A ordem, então, se sustenta no temor (justamente do arbítrio da autoridade) e não no respeito. O temor não é um garantidor da paz social, mas ao contrário, um perigoso sentimento, porque alimentado pela indignação e pela sensação de desacato e provocação de parte do poder oficial contra os cidadãos.
Neste momento, vivemos um regime tido como democrático mas envolto em muitas denúncias de corrupção nas instituições, com o supremo mandatário da República tudo fazendo para impedir a criação de uma CPI para apurar denúncias de irregularidades em órgãos de seu governo. O presidente do Congresso – o segundo mais importante cargo da República – está enterrado em acusações de apropriação de dinheiro do povo ao longo de seus anos de vida pública. Numa das grandes cidades brasileiras – a capital da Bahia, ainda um feudo neste Brasil de 500 anos – a desordem pública está implantada, algo inconcebível numa nação que se proclama civilizada.
A criminalidade – sobretudo o assalto ao patrimônio alheio – nunca foi tão acentuada como agora, no País, a ponto de, em algumas das grandes cidades, o poder paralelo dos comandos do crime organizado serem mais eficientes que os organismos oficiais de segurança. No Paraná, o governador abandona os problemas e viaja, já tendo ficado fora do País o correspondente a um ano de dias úteis, para fins não muito bem explicados mas que foram de pouquíssimo proveito para os paranaenses.
E, enquanto se vive a vergonha de um juiz estar preso por envolvimento em denúncia de desvio de R$ 169 milhões de dinheiro público, pela construção superfaturada do edifício da Justiça do Trabalho em São Paulo, toma-se conhecimento agora de outra acusação contra esse Poder. Ela parte do próprio presidente da Associação dos Magistrados do Trabalho da 9ª Região, Reginaldo Melhado, que denuncia juízes da Justiça do Trabalho de São Paulo e Minas Gerais por nepotismo. Ou seja, a contratação de parentes para trabalhar nos tribunais, com salários de até R$ 10 mil mensais, havendo suspeita de que isso esteja ocorrendo também no Paraná.
Pela denúncia, juízes agem em parceria com colegas de outros Estados, para disfarçar a contratação ilegal de parentes, alguns dos quais ‘‘não aparecem nem para pendurar o paletó’’, conforme as palavras do denunciante. (A lei prevê que cônjuges e parentes de juízes até terceiro grau não podem ser nomeados para cargos em comissão, nos tribunais). A associação ameaça publicar na imprensa os nomes dos envolvidos, incluindo os juízes, pois, se a irregularidade se comprovar, são eles os agentes responsáveis. Muito desalentador ouvir essa denúncia, ainda mais por envolver membros da Justiça.

mockup