A violência que ocorre em Salvador por estes dias é apenas o agravamento de uma situação permanente na capital baiana, porque ela sempre existiu nos bairros pobres daquela cidade, só que pouco mostrada. É que agora, com a ausência, nas ruas, dos policiais militares e civis – em greve por melhores salários – os milhares de desocupados por falta de trabalho migram para o centro a fim de roubar e saquear.
O que ocorre é uma batalha campal dos baianos lutando entre si e autodefendendo-se como podem. De um lado a comunidade da cidade turística – aí compreendidos o comércio e todos os serviços – e de outro a enorme legião de desempregados que habitam a periferia miserável, onde não há moradias decentes, nem saneamento básico e nem segurança.
Dizer-se que Salvador se assemelha a uma grande favela poderá ofender os baianos, mas é certo que suas belezas e encantos naturais e sua privilegiada localização à beira-mar mostram aos de fora apenas as áreas turísticas conservadas, porém cercadas de muita pobreza.
Governada há muitos anos por um único comando político, capitaneado por Antonio Carlos Magalhães, a cidade evidencia agora mais claramente – pela via da greve dos policiais e da violência mostrada na televisão – o quanto de nocivo esse regime feudal encerra. E não por culpa exclusiva do cacique, mas também do povo, que por melhor não conhecer da vida moderna e dos próprios direitos, faz de seu chefe político um deus, e se prostra ante suas bênçãos e seus mimos.
Esta Bahia pobre é a Bahia de ACM. O velho comandante sempre soube compreender e explorar a sua gente e tirou disso o máximo proveito, não permitindo que o povo evoluísse dessa condição e de sua natureza subserviente, como a lembrar os tempos do Brasil-colônia. E se a capital é isto que a greve dos policiais demonstra, o interior não é diferente.
A Bahia dos investidores hoteleiros e da infra-estrutura turística é aquela vendida pela propaganda. Indiscutivelmente maravilhosa, mas essa não é a Bahia dos baianos. Lembra a Cancún riquíssima em sua delimitada zona de hotéis luxuosos, porém miserável e primitiva na periferia, onde os turistas não vão.
O que não se compreende é como essa empresa-Bahia, que arrecada milhões com o turismo durante o ano inteiro e todos os anos, não tenha canalizado essa riqueza também para o bem-estar dos cidadãos. Culpa das políticas públicas. Remonta-se de novo a ACM, o governante. Ele e sua família, sim, muito ricos, assim como a comunidade que compõe o tradicionalismo do poder político e econômico na Bahia de Todos os Santos.
Embora não mais senador, Antonio Carlos é ainda o supremo mandante da Bahia. Não por coincidência o atual governador é de seu partido e um dos seus discípulos. ACM aparece agora na imprensa e culpa as oposições pelo que ocorre em sua cidade-feudo, especialmente o PT de Luiz Inácio Lula da Silva (citado pelo velho cacique apenas pelo fato de Lula ser potencial candidato à Presidência da República).
De fato, o articulador da greve e líder dos grevistas, que é presidente do Sindicato dos Policiais Civis da Bahia – e tem um respeitável projeto de modificação do sistema policial – é filiado ao PT e à CUT. Sinônimos de greve e agitação social, por boas causas ou por nem tanto. Porém, o certo é que saques e violência não ocorreriam se não houvesse clima propício para tal.
ACM desejou, ao longo de meio século de mando, que seu Estado continuasse pobre e miserável, para assim mais facilmente manipular as multidões, no velho estilo da política nordestina, tão vigorante em nossos dias como foi outrora. ACM é a causa, o efeito é a violência, esta gerada no ventre da pobreza.
Mas, repita-se, a violência não é novidade na Bahia, porque ela sempre esteve presente nos bairros periféricos, onde os veículos de comunicação nem chegam, pois – os principais – são propriedade do próprio Antonio Carlos Magalhães. O que agora é mostrado com mais intensidade – até porque há uma exacerbação da violência – é bem o retrato do imenso Brasil nordestino, controlado pelo coronelismo desde os tempos coloniais.

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