O mal dos governos inoperantes não é apenas o fato de o serem, mas a própria ignorância acerca desse fato e, pior, eles se imaginarem excelentes e inigualáveis em competência. Tal se dá, sem tirar nem pôr, com o presidente Fernando Henrique Cardoso.
Quinta-feira, na celebração dos sete anos do Plano Real, FHC demonstrou isso, mais uma vez. Disse, convicto, que fará seu sucessor, falou em tom de arrogância e não escondeu (embora não tenha pronunciado) que tem um candidato, entre os postulantes de seu partido à corrida presidencial. É seu ministro da Fazenda, Pedro Malan. Que estava presente e fez um discurso típico de candidato.
A preferência eleitoral de FHC é um direito que lhe cabe, assim como de subir aos palanques, mas soa arrogante e inverídico ele declarar que cansou de ganhar de gente que estava à sua frente, em pesquisas eleitorais, e que vai ganhar de novo. Na verdade – não contados os seus anos de teorizações político-ideológicas – a carreira eletiva de Fernando Henrique não é tão vasta, pois ele foi apenas senador e bipresidente. E também já perdeu eleição.
Então, FHC não deve ter se cansado de ganhar. Dir-se-ia isto de alguém que, realmente, sempre foi um ganhador e que tenha passado pelos cargos eletivos de vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, governador. Não é outro, então, o qualificativo que se deve dar aos seus arroubos senão o da fanfarronada.
Mais adiante, em seu discurso, FHC disse que quer passar seu governo a um sucessor que tenha a mesma visão de mundo que ele. E nisto, seu candidato predileto preenche o requisito. Mas se equivoca o presidente em exaltar isto como atributo se, no contexto de mundo, não acrescentar o Brasil. Eis que Fernando Henrique não tem visão do Brasil que governa, pois não o visita e não o conhece. Então, sua perspectiva de mundo é incompleta. Assim como é de seu superministro, cotado entre os aspirantes à cadeira presidencial.
Parece que FHC não ouviu a opinião pública para saber se ela quer mesmo um presidente com visão de mundo e não com visão de Brasil. Foi exatamente esse seu posto de observação – o mesmíssimo do ministro Malan – que o fez viajar tanto para fora do País, onde o aguardavam velhos companheiros de ideologia, e esqueceu-se de conhecer o Brasil reivindicante, onde sobram os pedidos e lhe escasseiam os aplausos; foi essa vesga visão internacionalista que conferiu ao seu governo essa linha monetarista e de favorecimento ao capital especulativo, que pouco contribuíram para o desenvolvimento do País.
Um dos resultados é a existência de 50 milhões de brasileiros em situação de indigência – pelo levantamento recente da Fundação Getúlio Vargas – ou 30% da população brasileira. Nada lisonjeiro para seu governo e muito menos para a própria Nação.
Provou-se, na prática, que essa visão de mundo tão exaltada pelo presidente não surtiu efeitos positivos, pois o Brasil cresceu pouco neste governo. Nem a sua decantada contenção da inflação é realidade. Se sua mais tremulante bandeira – a da estabilidade da moeda – não constitui uma verdade, o Brasil desenvolvido, então, não passou de sonho de noite de verão.
FHC fazer o sucessor não ocorrerá por mérito de suas palavras. Será preciso saber se o povo desejará fazer o sucessor de FHC. Certamente que a Nação, cansada da inoperância governamental – que só fez aumentar os índices de desemprego e da indigência, não elegerá um novo presidente com as mesmas características do atual. A certeza é que os brasileiros estão contando os dias para que este governo acabe.
Se o presidente Itamar Franco e seu então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, conceberam o Plano Real, a verdade é que o ministro convertido em presidente da República não soube levá-lo adiante, e o resultado que temos hoje é um Brasil estagnado, sem projetos de desenvolvimento – em verdade nenhum de envergadura. Ao contrário, há muita miséria social, muito desemprego, muita corrupção e muita desesperança dos brasileiros em algum milagre que ainda emane do governo que aí está.
A qualidade de vida do povo piorou e não há nada de grandioso a se esperar de Fernando Henrique, porque ele declara que tudo já está bem. Este é o mal do desconhecimento acerca da própria inoperância, da presunção da máxima excelência e da crença equivocada de que a população o está aplaudindo e desejando que ele faça um sucessor. E assim o governo de FHC irá arrastando os dias que lhe restam. Curtos para o presidente, longos demais para os brasileiros.

mockup