EDITORIAL
Os governantes nem se apercebem do quanto evidenciam o caráter da conveniência e da vantagem em quase tudo o que fazem e dizem. Ontem, neste jornal, o noticiário informava que o governo estadual quer fazer um enxugamento na máquina administrativa, tarefa em que se empenha o próprio governador, atualmente empreendendo sua 40ª viagem ao exterior.
Entre as medidas, a fusão de secretarias de Estado, que seriam reduzidas de 27 para 14 ou 12. Providência necessária, até para melhor desempenho das funções que lhe são afins e para evitar a excessiva burocracia, mas só fundir sem reduzir pessoal, equipamentos e material de expediente, não aliviará os cofres públicos e será apenas uma medida de fachada.
Mas por que o governo faz isso? Voltemos ao início deste artigo: não para servir ao Estado, mas apenas para o governador recuperar popularidade, para acalmar os ânimos dos deputados aliados e conter a crise nas relações do governo com sua base de sustentação na Assembléia Legislativa. Porque, assim como caiu para nível baixíssimo o conceito popular do chefe do Executivo, houve baixa acentuada também em sua cotação perante os parlamentares de apoio.
Então, a reforma administrativa não tem a visão cívica que se esperaria dos governantes - a de enxugar o conjunto da engrenagem pública para beneficiar a população - mas simplesmente a de melhorar a imagem dos figurantes que encenam no palco do poder e aplacar o nervosismo dos deputados atrelados ao governo, que de sua vez temem desgaste da própria imagem em suas bases eleitorais.
Tudo é um jogo de conveniência política. É dos próprios deputados governistas a afirmação de que o governador Jaime Lerner precisa adotar medidas drásticas se quiser retomar a popularidade perdida. Mas o que os cidadãos gostariam de ouvir é que, se providências não forem tomadas para reduzir o tamanho e o custo da máquina administrativa, a população será sacrificada ainda mais nos atendimentos de saúde, educação, segurança e outros serviços.
Mas essas preocupações parecem não constar do ideário governamental, porque elas nunca são mencionadas. Até nisso os governantes não têm decoro, pois não se vexam de admitir publicamente que providências saneadoras são necessárias para - apenas - recuperar a popularidade perdida do governador e acalmar os ânimos dos parlamentares reivindicantes.
Não se ouve palavras como recuperar o bem-estar perdido dos cidadãos e acalmar os ânimos dos 9 milhões de paranaenses indignados com desmandos, corrupção, cobranças abusivas de impostos e tarifas. Entre eles, os 2 milhões de indigentes agora evidenciados por pesquisa nacional e cuja imagem é das piores.
Isto sim deveria figurar entre as preocupações prioritárias dos narcisistas governamentais, tão preocupados com a própria imagem. Se buscassem primeiro restabelecer a imagem dos cidadãos - isto traduzido por mais segurança e bem-estar - a recuperação da imagem dos políticos viria por acréscimo.





