Inconcebível que 30% da população brasileira estejam na faixa da miserabilidade - cujo maior algoz é a fome - se o Brasil tem excesso de produção de alimentos. Os números ontem divulgados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) são estarrecedores. Mostram que 50 milhões de brasileiros perfilam na linha da indigência, com renda mensal abaixo de R$ 79. (Este é o valor mínimo de que necessita um pessoa, para aquisição de uma pequena cesta básica, segundo os parâmetros da Organização Mundial da Saúde). Isto significa que essas pessoas se alimentam mal, moral mal e sofrem de todas as doenças e mazelas daí decorrentes. O Estado do Paraná, que figura entre os maiores produtores de alimentos do País, tem 20% de indigentes, que somam quase 2 milhões de cidadãos.
O Brasil produz 90 milhões de toneladas/ano de grãos, e isto representa 500 quilos/ano para cada cidadão, ou 1 quilo e meio diários de alimento. Dispõe de tantos bois nos pastos quanto o contingente populacional, o que corresponde a uma rês anual por pessoa, ou 1 quilo diário de carne. Só aí seriam 2 quilos e meio de alimento/dia para cada cidadão, que em média consome menos de 1 quilo diário de comida. Somando-se as carnes de suínos, caprinos, aves, peixes e outros, mais ovos, legumes, verduras, frutas e outros extratos, pode-se calcular quanto a dadivosa produção brasileira de alimentos pode propocionar a cada patrício, imaginando-se que tudo seja destinado ao consumo interno. Vejamos estes números, fornecidos pelo Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura do Paraná e que mostram a produção de alimentos no Brasil, na safra do ano passado: grãos, 94 milhões de toneladas (cálculo de 2001); carne bovina, 5,7 milhões de toneladas; carne suína, 2,021 milhões de toneladas; aves, 5 bilhões de quilos; ovos, 40 milhões de caixas de 30 dúzias; leite, 20 bilhões de litros; frutas, 35 milhões de toneladas; e hortaliças, 13 milhões de toneladas. Cada qual que faça as contas e veja o que toca a cada brasileiro. Com tudo isto, ainda há quem passe fome no Brasil!
Então, o que ocorre não é escassez de alimentos, porém má divisão, que se traduz por falta de recursos para essas pessoas carentes adquiri-los.
No que respeita aos outros bens e serviços - incluindo moradia - que escasseiam para esses 50 milhões de brasileiros, a disponibilidade é idêntica, pois as linhas de produção dispõem do suficiente para todos, mas tais bens não chegam à mesa desse gigantesco contingente de párias, que estão à margem dos benefícios e confortos da vida moderna. Não é outra, portanto, a verdade, senão a de que vigora, predominante, o regime da insensatez e da ausência de humanismo.
O estudo da FGV cita o problema e também sugere uma fórmula de solução, que seria o Governo destinar R$ 1,7 bilhão mensais para ações de combate à pobreza. Nada impossível se o Governo se empenhasse com firmeza num projeto dessa envergadura. Óbvio que recursos existem, desde que se operassem cortes substanciais na manutenção da caríssima e desperdiçadora estrutura oficial e que se implantassem projetos de desenvolvimento para o País, santo remédio que elimina todas as misérias sociais. Mas nisto não se empenha o Governo Federal, especialmente o de Fernando Henrique Cardoso, há sete anos afundado na obsessiva política monetarista, sem planos voltados para o crescimento do País e a consequente geração de empregos, que é a solução mágica para todas as mazelas e para o abandono do assistencialismo. No que respeita ao Paraná, o estudo da FGV mostra que seriam necessários R$ 65,5 milhões mensais em investimentos, para erradicar a pobreza, pela via do desenvolvimento.
Este dadivoso Brasil e em especial este Paraná riquíssimo em recursos naturais, produção de alimentos e capacidade instalada, já produzem toda a riqueza material (que não é privilégio de todos os países) para dar alimentação, conforto e bem-estar para toda a população, mas falta a conscientização do governo e também da sociedade para possibilitar a todos o acesso a esses bens. Isto se tornaria realidade pela simples doação - que é a menos indicada das fórmulas, mas que se faz necessária, agora que a situação se manifesta aguda, e até porque existem recursos - ou através do soerguimento do cidadão pela criação de emprego, que assim ele se sustentaria pelos próprios meios, dispensaria a ajuda assistencialista e viveria com dignidade.
Mas nenhuma das duas fórmulas é adotada na intensidade que o momento exige. O que não se pode admitir, em sã consciência, é o brasileiro passar fome com os paióis abarrotados de alimentos, com a produção em constante expansão, neste Brasil onde o vasto potencial produtivo nem sequer foi inteiramente explorado.

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