Assim como no futebol, trava-se uma verdadeira batalha campal entre Argentina e Brasil, deflagrada pelo ministro da Economia do vizinho país, Domingo Cavallo, que parece disposto a manter o clima de hostilidade com os brasileiros e quebrar a unidade do Mercosul. Ele joga pesado e desleal, quebrando o compromisso que havia assumido recentemente, em Brasília, quando veio solicitar apoio às medidas comerciais que havia adotado em seu país.
Mas sua decisão de jogar bruto foi adotada agora, com uma resolução tarifária que tomou e que dá preferência à importação de produtos originários de fora do bloco do Mercosul. Com isso atinge o Brasil. Os produtos da lista são computadores, telefones celulares, colheitadeiras e tratores brasileiros, constantes até então da pauta das importações argentinas.
Agora em Roma, onde se encontrava, e falando perante empresários, Domingo Cavallo mencionou ‘‘vaivéns desse elefante chamado Brasil’’. (Esse paquiderme – o elefante – que habita as savanas da África, é um animal de cérebro bastante desenvolvido, muito astuto, ao mesmo tempo dócil e amável mas também forte e feroz, capaz de marcar por toda a vida a imagem de um desafeto e dele se vingar, no momento oportuno.)
Só se pode concluir que, neste confronto entre Cavallo e elefante, os estragos no gramado serão grandes. Convém a ambas as torcidas – que são os argentinos e os brasileiros – que o jogo termine em empate e sem patadas e nem trombadas. Se o Brasil perde, a Argentina perde mais, porque no ano passado sua balança comercial com nosso país registrou superávit de US$ 600 milhões, e no primeiro semestre deste ano a vantagem argentina já é de US$ 500 milhões.
Joga com imprudência, portanto, o ministro Cavallo, porque o Brasil é muito importante para a economia de seu país. O presidente Fernando De la Rúa, mais ponderado que seu intrépido e indomável ministro, fica à margem do campo, não imaginando como conter o ímpeto de seu auxiliar – a quem foi buscar em momento de crise no início de seu governo. Portanto não pode dispensá-lo. Foi Cavallo o responsável pela paridade do peso com o dólar, em sua investidura anterior, política que De la Rúa está mantendo. Entendem muitos que, na Argentina, ruim com Cavallo, pior sem ele.
O governo brasileiro age com diplomacia e busca salvar o Mercosul. Também quer ver recuperada a economia argentina. Domingo Cavallo, que tem se revelado um audacioso estrategista e é um mito em seu país, relembra outro mito argentino, o jogador Diego Maradona, que nunca conseguiu esconder sua hostilidade ao Brasil. Política e futebol, no caso, parecem caminhar juntos na relação entre os dois países.

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