Está certo que a Associação Comercial do Paraná (ACP) busque a defesa da classe que congrega, que são os comerciantes, mas seria prudente que também se preocupasse com o consumidor, que é o que dá sustentação à atividade do comércio. Se o comprador fica inadimplente e deixa de pagar as prestações, a outra extremidade dessa cadeia também sofre abalos e fica igualmente sujeita a inadimplência.
Ontem, citando números da ACP, este jornal informou que a inadimplência da clientela no comércio paranaense, em junho, atingiu o índice preocupante de 5,7%, o dobro do que ocorreu no mesmo mês do ano passado.
Observa-se, na esteira do fato, que a recomendação que a entidade faz aos filiados é, como sempre, de autoproteção no que se relacione com o crediário, nunca a pregação de doutrinas de humanização dos preços altos das mercadorias e dos juros excessivos que são cobrados nas vendas a prazo. Esta é uma política que ainda falta no ideário da Associação Comercial.
Defender os associados deveria implicar, também, em defender o consumidor, e uma das formas é conscientizar os lojistas de que os juros que praticam nas vendas pelo crediário são elevados demais. Bastará observar os anúncios nos jornais e encartes publicitários, e fazer as contas.
Algumas lojas anunciam juros explícitos de 4,5% ao mês, quando a inflação oficial, apregoada pelo governo, é de pouco mais de 1%. Se uma mercadoria de R$ 2.400 – como se viu anunciado – acaba em R$ 4 mil em 24 meses, isto significa um adicional de R$ 1.600, que corresponde, num cálculo inicial, em juros de 67%. Porém, o percentual seria este se o débito fosse pago todo de uma vez, 24 meses depois. Como o pagamento é amortizado em parcelas mensais, o juro real passa a ser infinitamente maior.
O interesse do comércio, sobretudo os grandes magazines, é vender a prazo, porque se o ganho já ocorre no percentual da lucratividade natural sobre a venda da mercadoria, é maior na especulação financeira. Dessa forma, as lojas transformam-se em bancos, porque muito interessadas na política dos juros.
Mas isto acaba resultando em prejuízo do próprio comércio, porque muitos compradores acabam na inadimplência, pelo valor elevado das prestações e pelo longo tempo de endividamento; ou deixam de comprar, preferindo ficar sem certos bens ou conservando os velhos que possuem.
Deve, naturalmente, a Associação Comercial, recomendar que o comerciante faça melhor análise do comprador antes de liberar a venda, mas deveria também adotar políticas patrióticas de orientação à classe que congrega e assim contribuir para que a inflação seja realmente contida e a economia nacional se estabilize. O comerciante não pode perder, mas também o consumidor precisa ser protegido, até porque é de interesse mútuo que isso aconteça.
Associações de classes têm, também, a sua parcela de compromisso público e devem pensar em macropolíticas, que sejam também de defesa dos interesses nacionais. Um exemplo de impatriotismo está nos juros abusivos dos bancos, e por isso não deve o comércio transformar-se, também, em especulador financeiro.

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