EDITORIAL
Se o pão francês, que custava R$ 0,15, foi aumentado agora para R$ 0,20, a majoração foi de 33%, e isto demonstra uma falta de critério e de responsabilidade das panificadoras. A alegação é que o trigo importado ficou mais caro com o aumento do dólar, porém ocorre que a alta da moeda americana não foi de 33%. E nem todo o trigo que compõe o pão nosso pão de cada dia é importado. Ademais, não é só trigo que o pão utiliza.
O caso do pão é apenas uma amostra do que ocorre com a indústria, o comércio e os serviços, no Brasil, sempre que um componente de seus produtos sofre elevação. A pretexto da subida do dólar e das tarifas públicas - de um governo que apregoa inflação domada e moeda estável - os segmentos industriais e comerciais e toda a cadeia de serviços começam a aumentar tudo, de maneira atrabiliária, sem o critério de avaliar quanto a alta de certos itens de seus produtos realmente incide sobre o custo final.
Ontem este jornal publicou que está ocorrendo um festival de aumentos, sob a justificativa da alta do dólar, da elevação dos juros bancários, do racionamento de energia elétrica e até da crise argentina. Se é certo que esses fatos trazem na esteira uma sucessão de aumentos de preços, há que haver critérios e a máquina de calcular tem que ser acionada, ou a inflação retornará avassaladora.
De acordo com levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), da Universidade de São Paulo, nos últimos 12 meses os cereais subiram 40%, as frutas 28,6%, os hortigranjeiros 11,7% e o feijão - alimento principal do brasileiro - 80%. Todos os itens encontráveis nos mercados subiram, assim como o grupo dos eletrodomésticos e dos eletroeletrônicos, estes agravados pelo juro extorsivo nas vendas a prazo.
De há muito os especialistas em cálculos advertem que é preciso fugir do crediário. É certo que, numa compra parcelada em 12 meses, o cliente paga uma vez e meia pelo produto. Se o governo nunca deixou de elevar as tarifas públicas e se permite e estimula a manutenção de juros altos pelo sistema financeiro, as cadeias de produção e venda de mercadorias e os serviços deveriam adotar critérios mais adequados para a alta de seus produtos. Agindo assim, vendem menos e acabam, com frequência, entrando em crises que ameaçam a própria atividade.
A prática das liquidações, adotada como solução para o giro do estoque, só aumenta a desconfiança do consumidor, que não compreende como um produto pode baixar até 50%, nessas promoções. Imagina que, ou o preço era alto demais antes, ou agora o comerciante está falindo... Esse hábito deixa o cliente ressabiado e de sobreaviso, aguardando liquidações, quando a atitude sensata do comerciante deveria ser a de vender permanentemente a preços razoáveis, e assim manter o negócio em alta o ano todo.
Se o governo adota políticas econômicas desastradas, sobretudo mantendo juros bancários altos, para - no seu vesgo entendimento - frear o consumo e assim conter a inflação (que, de qualquer forma, não está sendo contida), a indústria, o comércio e o segmento dos serviços têm que usar a sensatez, ou cometerão os mesmos equívocos da arrogância governamental.
Aumentos desordenados, acrescidos de juro abusivo nas prestações, só levarão à volta da inflação incontrolável e à queda de vendas, pois o consumidor se contrai e passa a adquirir só o absolutamente necessário. Isto poderá ser o princípio do caos. Sem consumo não há desenvolvimento, mas ao contrário, só quebradeira e desemprego e tudo o que isso traz a reboque.





