EDITORIAL
Só no Brasil um político sob suspeita de envolvimento em corrupção, como o senador Jader Barbalho, pode permanecer na presidência do Congresso Nacional. Se ninguém pode ser condenado sem provas, apenas a existência de denúncias deveria ser suficiente para o pedido de renúncia de cargo tão relevante. Todos os dias a imagem do presidente das duas Casas do Congresso aparece nos veículos de comunicação, e não apenas em função de seu desempenho parlamentar, mas sobretudo ilustrando notícias de denúncias contra ele. Torna-se, assim, muito difícil sustentar a imagem de moralidade do Congresso.
A mais nova denúncia é que, nos 300 dias em que esteve à frente do extinto Ministério da Reforma Agrária, de 1987 a 1988, Jader Barbalho foi o responsável pelo maior número de pagamentos de indenizações de terras do País, em tão curto período. Porém, o que pode parecer um processo natural, agrava-se pela denúncia de que todas essas transações foram feitas com muita rapidez e que o pagamento dos Títulos da Dívida Agrária (TDAs) chegou a ser feito no prazo incomum de dois meses. Das 170 desapropriações - que ocorreram em seu Estado, o Pará - 90 foram feitas por Jader, que pagou cerca de R$ 2,2 bilhões, ou R$ 2,9 bilhões em valores de hoje.
A vida de Jader é marcada por processos, e depois que deixou o Ministério da Reforma Agrária para assumir o da Previdência, ele respondeu a vários deles, no Tribunal de Contas da União, no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal. Conseguiu, porém, livrar-se de todos eles. As operações agora denunciadas, envolvendo tanto dinheiro e feitas tão rapidamente a ponto de surpreender os próprios burocratas, deixam margem a suspeitas de ilicitude e de que o então ministro tenha se beneficiado, em face das evidências.
Naturalmente que Jader se defende municiado de documentos, que são mostrados em seu site à guisa de testemunho de que todas essas transações são regulares. Óbvio que tal documentação tenha que existir, ou as transações não poderiam ter validade legal, mas não são documentos que as investigações buscam e nem o que os cidadãos desejam. E, como o que se busca, se houver, não é fácil de encontrar - porque eventuais ilicitudes não ficam documentadas -, os processos caminham pela Justiça e, no mais dos casos, acabam caindo na vala comum da ausência de provas.
Um dos caciques da Região Norte do País e que já foi também governador de seu Estado, com suspeitas de envolvimento em negócios fraudulentos no Banco do Estado do Pará e na Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), o que se sabe é que o veterano político veio enriquecendo o seu patrimônio e hoje é um homem de muitas posses.
Houvesse decoro por parte dos políticos, no Brasil, e um homem público envolvido em tantas denúncias não seria eleito para o relevante cargo que hoje ocupa, e, de sua parte, ele renunciaria à função, como gesto de dignidade e de respeito à preservação da imagem de uma instituição como o Congresso Nacional.





