EDITORIAL
Depois que o Plano Real entrou em vigor o povo só tem ouvido o governo afirmar que a moeda está estabilizada e que a inflação foi contida. Esta passou a ser a bandeira da atual administração pública federal. Contudo, desde então todas as tarifas públicas e na continuação bens e serviços nunca deixaram de subir, com os juros do sistema financeiro tão altos como sempre foram. Agora a Agência Nacional de Energia Elétrica autoriza mais uma alta, a da energia elétrica, que no caso do Paraná será de 17,31% a partir de hoje.
As tarifas dos serviços públicos vieram numa ascendente, e os bens do comércio acompanharam esse ritmo. O cidadão veio pagando sempre mais e mais, enquanto a sua renda permaneceu mais ou menos estacionada, com o agravante de haver aumentado o desemprego. Para um cidadão sem trabalho, a inflação já não tem referenciais e todos os números passam a ser assustadores.
O comércio também tem praticado juros altos, embutidos nas vendas a prazo, e a referência para os cálculos nunca é o índice da inflação apregoada pelo governo, mas as taxas dos bancos. Não se pode, portanto, falar em estabilização do custo de vida se os bens e serviços, combustíveis incluídos, nunca deixaram de ser reajustados para cima. Há casos de bens alguns essenciais, outros não, porém presentes e desejáveis na vida moderna que duplicaram e até triplicaram de valor, desde o advento do Plano Real, sem a correspondente melhoria da renda dos cidadãos, porque a política tem sido a de manter os salários dentro dos índices do que o governo denomina inflação contida.
Em países de moeda realmente estabilizada, bens e serviços têm valores que oscilam muito pouco, e o preço do dinheiro, para quem busca empréstimos e financiamentos, acompanha esses índices baixos. Os bancos passam, assim, a ser agentes de desenvolvimento e não especuladores, como no Brasil; têm função social e não apenas função de lucro. Sua lucratividade se lastreia no grande movimento e não nos juros extorsivos e na cobrança de tantas taxas à guisa de serviços, que aumentaram em quantidade no sistema bancário brasileiro e transformaram-se em rico filão de receita.
Enquanto a aplicação financeira tem pequena renda para o poupador (em torno de 0,7%) esta sim baseada nos números oficiais anunciados como da inflação o custo do dinheiro tomado nos bancos chega a dez vezes mais, em certos casos. Convivemos, então, com duas moedas: a barata, que sustenta os salários e o rendimento dos cidadãos com a caderneta de poupança e outras aplicações financeiras, e a cara, representada pelo custo do desconto de duplicatas nos bancos, dos empréstimos pessoais, do cheque especial, dos juros do cartão de crédito etc.
Esta é uma incongruência do Plano Real, nunca compreendida. Um modelo tipicamente brasileiro ou de países subdesenvolvidos e de inflação descontrolada, onde são os governantes que ditam as regras e não o mercado.
Agora sobe a tarifa de energia elétrica e isto gerará nova onda de alta nos custos de bens e serviços. E como os preços não são controlados e há também pouco critério de certos segmentos empresariais, seus produtos são aumentados pelo mesmo percentual com que cada tarifa e outros componentes do processo são corrigidos.
No caso do aumento de agora da energia elétrica, o critério deveria ser a avaliação de quanto esses 17,31% representam na composição de custo do produto. Mas na maioria dos casos não é assim que acontece, até porque o empresário brasileiro não domina bem essa tábua de cálculos. Assim, desencadeia-se todo um desordenado processo de elevação de preços e o sonho do Plano Real não se concretiza.





