Viajando, um governante também pode governar, e extrair benefícios, mas há os que, mesmo não governando na ausência, prestam ainda melhor serviço ao Estado, porque fazem menos estragos. Juscelino Kubitschek, o mais aplaudido de todos os presidentes brasileiros, vivia mais dentro dos aviões que no Palácio. Porém, também viajava ‘‘para o Brasil’’, diferente do presidente atual, que vai muito para o exterior, mas não conhece o país que governa.
Não se sabe bem em que modalidade de político-viajante o governador Jaime Lerner se enquadra, a não ser aquela dos que apreciam viajar. Também ele, a exemplo de FHC com relação ao Brasil, viajou pouco pelo pelo Paraná e nunca foi muito encontrável no interior. Agora Lerner empreende a sua quadragésima viagem para o exterior desde que assumiu o governo, no primeiro mandato, em 1985. A maioria de suas incursões mundo afora foi para os Estados Unidos, onde reside uma de suas filhas. Pode ser apenas uma coincidência, eis que a nação mais importante do mundo também é a que atrai mais visitantes e, portanto, desperta mais interesse de parte dos governantes.
Desta vez Jaime Lerner - que já não precisa de autorização da Assembléia Legislativa para se ausentar do País - vai a Washington participar de uma exposição sobre o programa das vilas rurais que seu governo desenvolve, um empreendimento de questionável validade, pela pequena área de terra de cada assentado e pela ausência de infra-estrutura, fatos já condenados por especialistas em questões agrárias. Mas lá vai o governador receber aplausos, nesta exposição fotográfica de sua obra.
Fotografias, se bem elaboradas - e estas das vilas rurais certamente o são - produzem efeitos fantásticos e escondem as mazelas. Apenas por isto, esta viagem governamental, paga com o dinheiro dos cidadãos, mostra-se totalmente desnecessária e inútil para os interesses paranaenses. O que o governador trará será somente a memória dos aplausos. Pela nova lei aprovada pela Assembléia o governador não é obrigado a prestar contas da viagem.
Deputados da oposição, estrategicamente convidados por Lerner para ir com ele, e assim desfrutarem da mordomia e aumentarem os gastos, recusaram o convite, por questão ética e de coerência, pois eles têm combatido da tribuna esses ‘‘passeios governamentais’’. Como não é permitido perguntar e exigir prestação de contas desses viagens, resta indagar quanto o governador já gastou nas 39 idas ao exterior - muitas vezes com comitivas - e que proveito o Paraná obteve com isso. Foram, no total, 298 dias de ausência do País, portanto um ano inteiro de dias úteis.
É dos anais do humor futebolístico que, quando o famoso técnico Vicente Feola dormia no banco, o seu time fazia gols. Políticos da oposição aproveitam-se do gracejo para comparar Lerner ao técnico, afirmando que quando o chefe viaja o Paraná cresce. A verdade é que essas frequentes viagens do governador já passam a ser encaradas como atos de irresponsabilidade, porque a maioria delas, mais ou menos como a de agora - marcada para o fim do mês - é de discutível proveito para o Paraná, mais parecendo uma paixão pessoal do governador por viajar, ou quem sabe uma fuga dos problemas.

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