Milhões de pessoas no mundo vivem na condição de condenadas à morte pela fome, por falta de assistência de saúde, por abandono, por maus-tratos e toda sorte de misérias sociais. Países que vivem secularmente em confronto armado educam desde cedo os seus filhos para a luta, quase meninos com o destino dramático de sofrerem mutilações ou perderem a vida. Nações guerreiras mandam para o front os seus jovens combatentes que aprendem, cedo demais, a conviver com a morte. Todas estas são formas consentidas de condenação à morte, e elas estão presentes nas nações subdesenvolvidas e nas potências rotuladas de grandes civilizações.
Estes fatos lamentáveis e incompreendidos do comportamento humano, contudo, não justificam que os tribunais decretem o extermínio de um condenado, nem invalidam os movimentos - que ganham corpo em todo o mundo - contra a pena de morte. As duas execuções ocorridas agora nos Estados Unidos reacendem os debates em torno da questão e reavivam corações e mentes da imensa maioria contrária à pena capital. Coincidindo com a ocorrência desses fatos, anteontem a cidade de Roma iluminou o Coliseu (outrora palco de festivos extermínios) para celebrar a recente abolição da pena de morte do Chile, e hoje começa em Estrasburgo, na França, o 1º Congresso Mundial Contra a Pena de Morte, reunindo 110 destacadas autoridades do mundo, entre elas presidentes de Parlamentos da Europa, Ásia, África e América Latina.
A proposta do Congresso é de formalizar um apelo aos países que adotam a pena de morte (e que somam um grande número) para que risquem de seus códigos este tipo de condenação - Estados Unidos entre eles, ainda mais agora que têm na presidência um adepto da pena radical, ele que, apenas como governador do Texas, ordenou 152 execuções. Pesa ainda sobre a nação americana a denúncia de que as vítimas, na maior parte dos casos, pertencem a minorias raciais e étnicas.
Porém, independente desse agravante, o que as pessoas civilizadas do planeta rejeitam é a pena pelo extermínio. A função do Estado deve ser a garantia da vida e a recuperação do delinquente, para reintegrá-lo à sociedade. A punição com a morte, sobretudo nos EUA - a nação mais poderosa do mundo e por isso mais em evidência - caracteriza um disfarçado anseio de vingança, porque a adoção dessa prática não alterou as estatísticas da criminalidade. A pena capital, portanto, não atende a um suposto propósito de servir como exemplo e advertência.
Transforma-se assim o Estado em igual assassino, com o agravo de que institucionaliza o seu ato. E as Cortes convertem-se em iguais exterminadoras, para desencanto daqueles que as contemplam como lugar habitado por iluminados seres de alvas cabeças e instâncias onde seja desconhecido o radicalismo e reine, soberana e inabalável, apenas a sabedoria.

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