EDITORIAL
Informações da Rede Verde, um serviço de informações ambientais respeitado em todo o País, publicadas ontem neste jornal são muito esclarecedoras e convincentes quanto às razões para o fechamento da Estrada do Colono e a reunificação do Parque Nacional do Iguaçu. Ao longo dos 77 anos de existência deste caminho - aberto pelos colonos que migravam do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina e que, com seus 17,6 quilômetros, encurtava significativamente a ligação entre o Oeste e o Sudoeste paranaenses - muito se falou dos benefícios que a estrada proporcionava aos habitantes da região mas pouco dos danos ambientais provocados pela passagem do homem e dos veículos em meio à floresta.
Com a intensidade dos movimentos em defesa do meio ambiente as pessoas começaram a aprender mais sobre fatos relacionados com as florestas, as águas, o ar, e por isto foi se plasmando uma consciência ecológica cada vez mais consistente. Quando o Parque Nacional do Iguaçu foi criado, em 1939, pouco se sabia sobre os danos provocados pela estrada, tanto que ela foi tolerada durante muitos anos, até que começariam os alertas, que culminariam com a decisão agora tomada de fechar definitivamente esse atalho e replantar a vegetação ao longo de seu leito.
As escolas pouco têm ensinado sobre ambientalismo, e as informações ficaram mais em poder da comunidade científica, até porque - com um país em desenvolvimento e ávido de desmatar e de implantar indústrias, a qualquer custo - os veículos de comunicação não davam muita importância a assuntos de natureza ecológica. Agora já se sabe que é possível a convivência harmônica das tecnologias do mundo contemporâneo com a preservação ambiental, e este é o caminho que a humanidade terá que trilhar. A minoria predadora é ainda poderosa, mas é certo que uma nova mentalidade vai se robustecendo, e neste último sábado, em Gotemburgo, na Suécia, a cúpula da União Européia decidiu ratificar rapidamente o Protocolo de Kyoto (que trata da defesa ambiental), para que entre em vigor antes de 2002, à revelia da decisão em contrário dos Estados Unidos.
Voltando ao tema da Estrada do Colono, poucas pessoas têm consciência de que o Parque Nacional do Iguaçu, com seus 185 mil alqueires e declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, é um santuário de preservação da biodiversidade, e que uma estrada cortando a floresta causa danos diretos à fauna e à flora, porque altera as suas condições originais. Em 1981, conforme lembrou este jornal ontem, um grupo de cientistas elaborou estudo no Parque do Iguaçu e constatou danos como o corte e o apanho de espécimes da flora silvestre, perseguição, atropelamento, capturação e caça de espécimes da fauna silvestre. E estudos mais recentes mostram que, numa área natural, é necessária uma distância de no mínimo 2 quilômetros para amortizar o efeito externo - entenda-se a ação do homem e seus mecanismos predadores.
No caso da Estrada do Colono, a tomar como base esse cálculo, ocorre uma perda de 7.200 hectares da área protegida. Ademais, a estrada fragmenta o Parque, e uma unidade de conservação da natureza será tão mais eficiente para proteção da biodiversidade quanto maior for seu tamanho. Outros impactos causados por uma estrada como a que acaba de ser fechada são a deposição de lixo não degradável, a modificação do escoamento natural das águas, a dispersão de doenças típicas de animais domésticos sobre os da floresta, a presença de grãos (consumidos pelos pássaros) tratados com produtos tóxicos transportados em caminhões, afora o impacto sonoro.
Estudos realizados há dois anos, na região da Estrada do Colono, mostraram ainda que a compactação do solo modificou a circulação das águas em largo trecho da floresta e que a passagem de veículos movidos a gasolina e a diesel afetou a flora e a fauna, provocando empobrecimento visível da paisagem na borda da estrada e que algumas espécies de animais e plantas foram particularmente afetadas. Se a estrada foi fundamental para a economia dos municípios de Serranópolis e Capanema (unidos por este caminho alternativo e agora novamente distanciados), é certo que muito mais importante é a preservação da biodiversidade, num Estado que apenas 70 anos atrás era quase inteiro mata virgem e onde agora só restam bolsões de preservação, como o Parque Nacional do Iguaçu.





