EDITORIAL
Há momentos em que, calados, os homens públicos se expressam melhor. Perdeu essa oportunidade o secretário-chefe da Casa Civil do governo paranaense, Alceni Guerra, quando, ao invés de calar-se, desqualificou a manifestação de segunda-feira, em Curitiba, contra a venda da Copel. Ele disse que a marcha - que teve a função de entregar um documento do povo à Assembléia Legislativa, contendo 120 mil assinaturas contra a privatização da empresa - foi um fracasso retumbante.
Certamente o secretário não quereria que os 9 milhões de paranaenses fossem todos a Curitiba, mas ele sabe que a grande maioria da população não é a favor dessa venda que o governo agora quer. A passeata, que envolveu também organizações políticas e potenciais candidatos ao governo do Estado, não pode ser medida isoladamente, eis que foi apenas uma entre tantas manifestações. E qualificar de fracasso uma vontade do povo soa como desprezo do governo para com a sociedade. Ao invés de palavras de respeito pela livre manifestação popular, a arrogância.
A presença de bandeiras de coloração partidária e ideológica na marcha de Curitiba não invalida um movimento de opinião pública praticamente unânime, no Paraná, contra a venda da Copel. A passeata foi apenas um dos seus reflexos. Ou seria, também, um fracasso retumbante a posição da Associação Comercial do Paraná, da Federação das Indústrias do Paraná, da seção paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil, da Igreja Católica e demais segmentos da população que têm se manifestado contra a privatização da companhia paranaense de eletricidade?
Não pode, pois, o secretário afirmar que o movimento tem evidentes objetivos eleitorais. Se também há políticos manifestando-se, isto não desqualifica a vontade dos cidadãos, porque, de qualquer modo, os políticos também têm representatividade popular. Jogar tudo à conta dos objetivos eleitorais é uma leviandade do porta-voz governamental. Tudo será movimento político-partidário ou serão as vozes que bradam das multidões? O governo custa a distinguir os brados populares, porque não deseja identificá-los. Melhor acreditar nas coisas da forma que pensa serem e não na realidade.
Não tem o menor fundamento a afirmação do secretário de que o povo não aderiu ao protesto porque está compreendendo os argumentos do governo. Em que lugar o povo está compreendendo? O secretário deveria pesar melhor suas palavras, pois não se viu em parte alguma tal compreensão. Não se conhece uma única manifestação pública a favor da privatização, a não ser os murmúrios que emanam da comunidade palaciana.
Outra afirmação lamentável do governo, pela palavra do secretário, é a de que a sociedade paranaense quer a venda da Copel para que o Estado tenha melhores condições de investir em saúde, educação e segurança pública. Esta é uma verdadeira decretação falimentar da competência do governo. A crer nisto, uma vez gasto o dinheiro da venda da Copel, aquelas áreas fundamentais voltariam a ficar desassistidas, e mais patrimônio público teria que ser vendido, e assim sucessivamente.





