Vivêssemos realmente uma democracia representativa, no Paraná, os deputados estaduais seriam unânimes em não permitir a venda da Companhia Paranaense de Energia (Copel). Se foi o próprio poder legislativo - em momento de cochilo, de pouca vigilância popular ou de eventual troca de vantagens - que aprovou, três anos atrás, uma lei permitindo a privatização da empresa, agora a situação é outra e as manifestações revelam que a população não quer essa venda e sim manter a Copel como companhia estatal.
O referendo popular já está dado, e agora tornado oficial com a entrega ontem, à Assembléia Legislativa, do primeiro projeto de iniciativa popular dos paranaenses, pedindo a revogação daquela lei. Na semana passada a Associação Comercial do Paraná, representando a decisão de 70% dos seus 8 mil sócios consultados, manifestou-se publicamente contra a venda. Domingo os jornais estamparam em manchetes a decisão tomada pela Federação das Indústrias do Paraná de pedir ao governo a suspensão da privatização. De todos os pontos do Estado e dos mais diversos segmentos sociais a opinião já manifestada é de que a população não quer desfazer-se da companhia estatal de eletricidade, sobretudo agora, ante a crise energética e quando o Paraná desponta como um dos poucos Estados auto-suficientes em produção de eletricidade.
O que mais esperam os deputados, para se definir? Só um forte poder não conhecido, que suplante a vontade popular, poderá manter a intransigência dos deputados que ainda são favoráveis à venda deste patrimônio paranaense. Se foi pela representatividade popular, através do voto, que os deputados foram eleitos, e se essa vontade foi reconhecida como legítima, a mesma legitimidade agora se manifesta, pela decisão do povo de que a Copel não seja vendida. Ademais porque este veredicto popular já se torna oficial, através do documento da cidadania paranaense que acaba de dar entrada na Assembléia.
A decisão da sociedade deveria ser uma referência não apenas aos deputados mas ao próprio governo estadual, porém, neste momento de obstinação por ‘‘fazer dinheiro’’, isto parece contar pouco no conceito da comunidade governamental. Deveria considerar-se privilegiado um governo cujo povo é tão politizado que se manifesta e diz o que quer. A vontade dos cidadãos, nesta delicada questão da Copel, não tem vinculação com segmentos de cor partidária ou ideológica, mas é espontânea e por isso deveria servir como valioso instrumento para os governantes nortearem os seus atos.

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