Não é possível, ainda, medir a profundidade das palavras do ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, ao admitir ‘‘mea-culpa pelo fracasso do governo’’ na adoção de medidas para enfrentar a seca do Nordeste. Porque nos habituamos a não acreditar nas manifestações dos governantes, no mais das vezes camuflando oportunismo e demagogia. Mas se desconhecemos os reais sentimentos do ministro, devemos admitir que ele está certo quanto às palavras. Por elas, poderíamos alcunhá-lo de uma voz que brada no deserto...
‘‘A distribuição de cestas básicas e o uso de carros-pipa para distribuir água é o reconhecimento do fracasso’’, admitiu o denominado ‘‘ministro da seca’’, dizendo que, além da parcela de responsabilidade que cabe ao presidente Fernando Henrique Cardoso, há cotas para todos os demais governos. Até aí, tudo certo com o parecer do ministro. Ele demonstra uma certa coragem ao criticar o modelo de assistencialismo ao Nordeste seco, porque o faz quando investido do poder e na qualidade de integrante do governo.
O que não se conhece bem é o que o governo federal está realizando de concreto para atacar o problema da seca em suas origens. Já se sabe que a liberação de recursos financeiros para os pequenos agricultores e assentados pode ser uma medida tão paliativa quanto distribuir água e cestas básicas, porque a questão fundamental persiste. A solução definitiva é fazer a água subterrânea aflorar e irrigar a terra, e tudo o mais virá por acréscimo. O dinheiro de financiamento que se anuncia – em torno de R$ 400 milhões – poderá esturricar-se e não vingar, como não vingam as plantações se faltar o essencial, que é a água.
O aceno para implantação de infra-estrutura é a promessa de R$ 114 milhões, para um universo de 759 municípios tangidos pela seca. Deveria ocorrer aí uma inversão das verbas anunciadas, contemplando-se mais – e antes de tudo – a infra-estrutura e depois as plantações. Erra o governo, mais uma vez. De qualquer forma, o mal de sempre é que nunca se conhece a real característica dos anunciados projetos de infra-estrutura e quem irá gerenciá-los, porque é enorme a soma histórica de dinheiro já enviado para aquela região, com idêntica finalidade, mas que mudou de rumo.
Parece temerário destinar R$ 400 milhões para financiar as lavouras sem a garantia da água. Difícil, ademais, acreditar que essa importância chegue inteira às mãos das 750 mil famílias dos pequenos agricultores; e que, mesmo chegando, seja adequadamente aplicada. A destinação de somas fabulosas de dinheiro para o Semi-Árido nordestino, ao longo dos decênios, foi o que não faltou. Mas isto apenas serviu para alimentar a indústria da seca e enriquecer os beneficiários de sempre – que nunca foram os sertanejos – porque o Nordeste flagelado continuou o mesmo.

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