Diante da crise energética e do agravamento da seca no Nordeste o presidente Fernando Henrique Cardoso desabafou que este é o ‘‘pior momento político’’ dos seus seis anos de mandato. Porém, ao invés de atentar para as causas que levaram a esta situação e buscar soluções para elas, preocupa-se apenas com fórmulas de ganhar pontos em sua popularidade e melhorar a própria imagem. Quando seria de esperar que, em face do racionamento de energia elétrica, o governo se debruçasse sobre projetos alternativos para produzir a eletricidade que falta (e não ocupando-se de impor medidas punitivas contra os consumidores e depois ter de voltar atrás, como fez segunda-feira), e que pensasse na adoção de sistemas duradouros para abastecer de água o Nordeste, o presidente da República começou a arquitetar ardis. Entre eles, intensificar a propaganda governamental, apressar uma reforma ministerial (negada por FHC mas tida como certa) para recompor as bases aliadas e agradar as correntes oposicionistas, e antecipar o lançamento do candidato presidencial de consenso do governo.
Parece mesmo inútil esperar que o presidente FHC tenha a sensibilidade de despertar para as razões que têm levado não apenas ele mas a nação inteira a amargos momentos. O ‘‘momento pior’’ do presidente é apenas político, já o dos brasileiros é econômico e social. Porque falta oportunidade de trabalho aos milhões de desempregados; falta segurança das empresas para investir, pela desconfiança nas políticas governamentais; falta a necessária estabilidade social que dê firmeza aos cidadãos e os encorage a enfrentar as adversidades; e - para que não se peque por apagões de memória - faltam a água e a comida para os sertanejos do Nordeste e falta a energia elétrica, razões do agravamento da atual dor presidencial, causada - necessário que se diga - não por essas tragédias sociais mas pela queda de sua popularidade.
O presidente Fernando Henrique, carente de auxiliares de suficiente estatura para assessorá-lo - até porque nunca os buscou e sempre desejou governar sozinho, à mercê de seu ego e teimosias e de sua curta visão acerca do país que governa - entrega-se agora a mais um espasmo de sua vaidade conhecida: melhorar não a imagem do Brasil, mas a dele próprio. Está nos jornais que a avaliação do Palácio do Planalto é que uma nova ação junto à mídia - entenda-se mais propaganda governamental - diminuiria o enfoque negativo da população sobre o governo.
É ingenuidade imaginar que a intensificação da publicidade sobre os feitos oficiais - nada de expressivo nestes seis anos de mandato de FHC - altere a situação social dos brasileiros carentes e venha a encantá-los com bonitas falas governamentais se o desemprego persiste, se o racionamento energético gera demissões e se a política para o Nordeste seco e faminto continua sendo a dos carros-pipa e das cestas básicas de alimentos. Procedimentos necessários e urgentes neste momento, mas que terão de ser adotados ano após ano se o governo não decidir pela execução de grandes projetos de irrigação para o sertão árido, cujas populações estão entregues à própria sorte.
Não pode ser confiável um governo que, em face de tamanhas crises, pense apenas em soluções de acomodamento político, em desviar a atenção do povo com campanhas propagandísticas e, como sugeriu um senador agora aliado de FHC, em ‘‘criar fatos polêmicos para desviar o foco negativo do noticiário’’. O governo subestima demais a inteligência dos cidadãos! E tão mal estruturado está que, mesmo operando no campo das idéias de como ludibriar 160 milhões de brasileiros com uma maciça campanha de recuperação da imagem governamental, não existe um consenso entre os aliados e os estrategistas palacianos sobre o que fazer e como fazer. Até para isto falta-lhes competência.

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